Capítulo 4
Muitos dizem: "Existem pessoas melhores fora da igreja do que muitos nela." Isso é comum, pois muitos se afastam da fé devido a decepções com membros da igreja que, algumas vezes, tentam exercer controle sobre a vida dos outros. Em outras palavras, mesmo que existam benefícios na igreja, por que iriam querer se associar com tantos fanáticos, falsos e arrogantes presentes?
Realmente, se passar um bom tempo na igreja, encontrará várias falhas de caráter. Embora a mídia adore focar nisso, fazendo parecer maior do que é, isso não é uma mentira. Perguntam-se: se a fé é real, os crentes não deveriam ser mais santos e virtuosos?
Alguns críticos chegam a dizer que toda religião envenena o respeito às diferenças, mas isso é reduzir tudo a um só saco. O cristianismo verdadeiro, por exemplo (não as suas muitas variações ou exemplos), defende uma vida de coração humilde e amor ao próximo. O cristianismo também defende uma liberdade de escolha pessoal, enquanto o Islã, por exemplo, obriga a conversão individual.
Isso se dá por um equívoco sobre o que realmente o cristianismo diz. Muitos não conhecem o termo “Graça comum”. Deus distribui dons, imagem e graça para qualquer um, independente do mérito, se são crentes ou não. A salvação, que é a graça especial, também é dada sem depender disso. Sendo assim, é falsa a ideia — e seus efeitos — de que é preciso ser santo para merecer estar na igreja. A igreja é um hospital para doentes, e não um museu de santos. Ou seja, ser cristão é justamente reconhecer tais falhas e buscar um lugar para aprender a lutar contra elas. Isso não impede que pessoas de fora tenham mais controle ou disciplina.
Essa ausência de virtude e respeito pelas escolhas não se dá apenas dentro da fé, mas em tudo o que o ser humano toca. Os regimes chineses e comunistas, por exemplo, foram alguns dos que mais tolheram a liberdade individual. A precursora Revolução Francesa foi extremamente opressiva e controladora. Todos esses movimentos não tinham influência religiosa e se consideravam laicos e racionais. Isso ocorre porque, na ausência de Deus, a sociedade idolatra outra característica para se sentir superior. Os marxistas absolutizaram o Estado, e os nazistas, o sangue e a raça alemã. Os humanos estão sempre procurando se sentir melhores e maiores, adequando o próximo conforme suas regras. Mesmo os ideais de liberdade e fraternidade podem ser usados para oprimir.
Sim, muitos cristãos se tornaram opressores, mas os últimos séculos mostraram que tanto as ideologias seculares quanto qualquer projeto podem se tornar assim. A presença de uma conduta opressora não refuta necessariamente as ideias que ali predominam. Todos, sejam fãs de um time de futebol, adeptos dos direitos homossexuais, socialistas, democratas... todos eles têm exemplos de intolerantes e arrogantes.
O falso cristão, o fariseu que pensa que Deus o aceita por sua retidão moral, é aquele que tenderá a se sentir superior aos que não têm a mesma religiosidade, resultando em abusos e exclusão. Mas, se enxergarmos um cristianismo de graça, favor imerecido (o real), percebemos que a opressão é pela falta de cristianismo, e não pelo excesso dele.
Marx não mostrou originalidade em sua crítica à religião; os profetas bíblicos já haviam alertado contra isso na Bíblia. Cristo critica os religiosos que oram, dão esmolas e sacrificam, mas fazem isso para serem vistos e louvados, achando-se assim superiores e merecedores até mesmo da admiração de Deus. Parece que a tendência de tais religiosos é obedecer visando um trunfo para dominar sobre outros.
Mas a realidade sobre Deus é que Ele vê o coração de tais pessoas. Deus deseja um coração arrependido, humilde e dependente d'Ele. Ou seja, desistência de poder próprio. Trata-se de uma gratidão tão grande que se deseja servir ao próximo da mesma forma.
Os críticos que afirmam que os cristãos são controladores em busca de poder e de se sentir superiores não percebem que os valores que utilizam para a crítica vêm do próprio cristianismo. Afinal, em algumas culturas, tal domínio e busca por poder é algo respeitável. Só achamos tal conceito mesquinho porque usamos o próprio evangelho como base.
Sendo assim, as falhas na conduta da igreja podem ser vistas como a adoção imperfeita dos princípios cristãos. Quando os povos anglo-saxões se converteram, eles demoraram a assimilar o altruísmo e a caridade cristã. Não compreendiam como uma sociedade podia sobreviver sem o medo da força. As cruzadas e muito do sincretismo ocorreram nessa época, onde tais povos guerreiros e bárbaros misturavam seus antigos conceitos com sua nova ética da fé.
O que devemos fazer, então, é não abandonar a fé cristã, pois sem ela perderemos justamente os princípios corretos que estamos usando para condenar tais atos de falsos cristãos opressores. Ao invés disso, precisamos buscar conhecer mais profundamente a fé cristã.
A própria escravidão, tão criticada por ocorrer em países cristãos, é uma injustiça histórica. Aparentemente, sumiram com o fato de que a escravidão do Novo Mundo foi fortemente combatida pelos papas da época. Tal escravidão foi abolida graças ao ativismo cristão. Não ocorreu por causa de uma consciência de direitos humanos, mas pela crença de que isso era contra a imagem de Deus no homem. Como o comércio era lucrativo, existia pressão de membros da própria igreja para que continuasse. Alguns utilizavam versículos de forma cega, sem perceber que a escravidão vitalícia e de sequestro baseada na raça era totalmente diferente daquela bíblica (temporária e para sobrevivência ou pagamento de dívidas). Os custos para libertar os escravos foram tão grandes para a Inglaterra que especialistas da época chamaram de um grande "econocídio". Mesmo assim, a igreja foi em frente e ajudou com que a Câmara dos Comuns fornecesse indenização para muitos dos agricultores que perderam por tal fato.
Especialistas demonstram que não houve ganho nenhum tangível e que tais medidas foram apenas prejudiciais aos cofres. Mesmo assim, ela foi condenada porque era errada, e os cristãos foram os primeiros a se embrenhar nisso. Da mesma forma, quando Martin Luther King Jr. clamou por igualdade e respeito racial, ele não invocava direitos laicos. Pelo contrário, clamava por uma moral cristã que condenava tais atos.
A história da igreja é cheia de mártires que encabeçaram filas em prol de defender oprimidos, mesmo perante medidas absolutistas de governos totalitários.
Palavras-chave: Bioética, cristianismo, graça comum, fé cristã, liberdade religiosa, marxismo, ideologias, opressão, liberdade de escolha, caridade cristã, imagem de Deus, escravidão, Martin Luther King Jr, crítica à religião, Cristo, salvação, moral cristã, igreja, fariseus, reforma cristã, valores cristãos, ativismo cristão.

0 Comentários