Capítulo 5
– Por que um Deus bom mandaria pessoas para o inferno?
Por que um Deus bom mandaria pessoas para o inferno, ou exigiria morte para livrá-las? Por que simplesmente não perdoar?
O que se percebe é que o cidadão moderno não tem dificuldade em acreditar em um “deus” que apoia qualquer escolha pessoal, mesmo que equivocada. Porém, rejeita fortemente a ideia de um Deus que julga más condutas, mesmo que tais condutas sejam sinceras, mas erradas.
C. S. Lewis, como profundo conhecedor de mitos e da Idade Média, considerava absurda a ideia moderna de que a magia e o apego ao fantástico eram próprios da Idade Média e que depois foram “superados” pela razão e ciência. Na verdade, segundo ele, falava-se muito pouco sobre magia na Idade Média, sendo que esse interesse floresceu nos séculos XVI e XVII, exatamente no período em que a ciência moderna ganhava força.
Os antigos acreditavam em uma ordem moral objetiva, tão real quanto o mundo físico. Violar essa ordem era como violar a própria realidade. Por isso havia um foco profundo no desenvolvimento de virtudes morais. Já a mente moderna acredita que a realidade é apenas física e pode ser moldada conforme nossos desejos. Em vez de nos moldarmos à realidade, passamos a acreditar que podemos moldar o mundo à nossa vontade.
Na antiguidade, alguém com estresse era aconselhado a mudar sua postura diante da realidade e da verdade. Hoje, aconselhamos a mudar o mundo ao redor, usando técnicas e medicamentos. A modernidade nasceu sonhando com o poder absoluto sobre o mundo, inclusive sobre o que é certo ou errado. Isso explica por que soaria estranho — até ofensivo — a ideia de um Deus que nos julgará por nossas decisões.
Porém, em diversas culturas orientais, seria absurdo crer em um Deus que não julga as más ações humanas. Então, quem está certo?
Na verdade, o cristianismo não é produto cultural. Ele fala de uma verdade que transcende todas as culturas. Por isso, é natural que confronte diferentes culturas em pontos distintos: confronta o Ocidente com a ideia de julgamento divino, e confrontou o Oriente com o ensino de "dar a outra face".
O amor e a ira de Deus são compatíveis?
Sim. Um Deus de amor pode — e deve — ser um Deus que se ira.
Afinal, só sentimos ira verdadeira quando amamos profundamente. Como nos sentimos ao ver alguém que amamos sendo maltratado? A pior forma de ódio é a indiferença.
A ira de Deus não é mau humor, mas uma oposição firme e justa contra o mal, como um médico que odeia o câncer justamente porque ama o paciente. Deus se ira contra o mal porque o mal destrói aquilo que Ele ama: Sua criação.
Se Deus não se irasse contra o mal, como poderia ser perfeitamente bom, justo e digno de louvor?
A justiça divina e o fim da vingança
Crer em um Deus de justiça é a única maneira de interromper o ciclo de vingança e ódio.
Todos nós nos revoltamos quando vemos o mal afetando aquilo que amamos, mas apenas a fé em um Deus que julga o mal pode nos consolar verdadeiramente, evitando que nos tornemos vingadores impiedosos.
Marx dizia que a religião era o ópio do povo, pois supostamente ajudava os pobres a suportar injustiças sociais esperando um mundo vindouro.
Mas, na verdade, o verdadeiro “ópio” é o ateísmo, que diz que nossa covardia, arrogância e traições serão simplesmente apagadas, sem julgamento.
O nazismo e outros regimes totalitários demonstraram que a ausência de uma ideia de juízo sobre os atos humanos pode levar à opressão e violência sem limites.
O inferno é justo?
Alguns dizem que o inferno eterno é pesado demais, como se fosse apenas uma punição por não “passar na prova”.
Mas essa visão ignora uma verdade profunda: Deus é a fonte e o padrão do que é bom. Quando alguém se afasta voluntariamente de Deus, está se afastando da própria possibilidade de crescimento, alegria, amor e bem verdadeiro.
Já nesta vida podemos ver pessoas sendo consumidas pelo egocentrismo, inveja e amargura. O inferno é a continuação eterna desse processo, o afastamento completo de Deus, a fonte do bem.
O inferno não é apenas um castigo imposto, mas a trajetória natural de quem escolheu estar separado de Deus.
Quanto mais uma pessoa busca um ídolo, mais se entrega a ele, mais se afasta do Senhor, e mais torna-se insensível à verdade e ao arrependimento.
Repare:
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Quanto mais alguém se entrega ao pecado — como drogas, pornografia ou consumismo —, mais deseja aquilo e mais rejeita qualquer correção.
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Essa pessoa acredita que ninguém a entende e começa a sacrificar tudo por aquilo que ama equivocadamente.
No inferno, essa obstinação torna-se a identidade da pessoa.
Ela não deseja a Deus, pois já se tornou aquilo que escolheu amar acima de tudo.
Esse é o verdadeiro inferno: alienação total, egoísmo, desespero, paranoia e dor.
Inferno: o que realmente é?
A imagem de um Deus jogando pecadores num lago de fogo pode ser simbólica, uma ilustração forte para descrever uma realidade espiritual.
A Bíblia diz que “Deus os entregou aos seus desejos” (Romanos 1). Isso significa que o inferno é Deus permitindo que o pecado receba o que tanto quis: a liberdade total em relação ao Criador.
E o que poderia ser mais justo do que isso?
Mas o cidadão moderno também acredita em erros morais...
Sim. Mesmo os que não creem em Deus condenam o autoritarismo, a exploração e a opressão.
A diferença é que o cristão crê que esses erros terão consequências eternas, pois há um juízo verdadeiro e inevitável.
Crer em um Deus de amor que nunca julga ninguém é uma ideia que não encontra respaldo na ordem natural — onde tudo tem consequências — nem em qualquer texto histórico ou religioso de qualquer cultura.
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