A paixão pelo personagem
Nas redes sociais, percebi um sintoma grave que vem ocorrendo com vários influenciadores. Por muito tempo, segui diversos conservadores (demonstrando que não são apenas os progressistas que sofrem disso), dando conselhos sobre vida, relacionamentos, carreira etc. Entretanto, comecei a reparar na queda reducionista de muitos deles. Alguns, que começaram direcionando e contextualizando o conservadorismo e o Cristianismo para temas específicos, passaram a simplificar seus textos em certas estéticas.
Um deles, que falava sobre masculinidade tradicional, ao ganhar seguidores, juntar um grupo de apoiadores e elevar o espírito de "nós contra os críticos", começou aos poucos a se tornar mais enfático, a reduzir todas as áreas da vida como se elas fossem respondidas por suas teorias, a rejeitar qualquer crítica. Além disso, outro fenômeno: começaram a absolutizar suas preferências, hipervalorizar seu estilo de vida e vender, de todas as formas, sua estética criada.
Aquele que antes falava sobre a importância de uma masculinidade e uma feminilidade, começava agora a dizer que homens não deveriam investir em mulheres que não agissem com certos elementos biológicos, como por exemplo: falar alto, ser extrovertida etc. Ele começou a reduzir tudo à neurociência biológica e a chamar qualquer crítico de um fraco que não merecia passar seus genes para frente.
Outro influenciador, que começou como um católico falando sobre marketing digital, criou uma estética onde basicamente pontuava seus hobbies e os pregava como se fossem a verdadeira essência de um homem: armamento, riqueza e artes marciais. No começo, era um estímulo verdadeiro, uma influência positiva para que os homens procurassem um estilo de vida mais disciplinado e objetivo. Entretanto, aos poucos, ao receber relatos de mulheres que diziam “meu marido acha lutas algo violento”, ao invés de aconselhar, prezar pela relação, ele simplesmente ridicularizava, zombava e questionava como elas podiam sentir “tesão” nesse homem. Ele idolatrava sua própria imagem, amava os elogios que recebia e ironizava outros maridos ou pais de família. Ele ostentava suas riquezas e escondia aquilo que não tinha como se fosse por humildade, influenciando várias mulheres a zombar de seus próprios esposos por não terem tal estética. Ele apoiava tal atitude, pois quando ouvia as queixas, ele apenas ilustrava e apontava como os maridos delas eram “fracos”, não tinham “ambição”.
Uma geração influenciada por ele passou a desconsiderar os propósitos de cada um, e vários meninos passaram a achar que bastava ter uma arma, tomar Corona e querer ser rico, que isso sim os faria um homem verdadeiro. Ele amava exaltar esse espírito, mesmo que não o dissesse com palavras. Basicamente, tudo que eles queriam fazer se tornava um padrão, e tudo que elas não faziam era ridicularizado.
Esse tipo de pregação moderna tenho chamado de padrão “macho hiperprodutivo”, e ele surge como uma renovação de interesse social. Pessoas cansadas da argumentação católica em prol da intelectualidade, de pais racionais e polímatas, começaram a se interessar por um discurso do tipo: “esqueça tudo isso, alimente sua família, ganhe bastante dinheiro, transe bem com sua esposa, aprenda a proteger sua família e ponto”. Embora existam méritos em alguns pontos dessa filosofia de vida, para o cidadão comum isso se tornou um chamado a sentir que o dever é cumprido ao ganhar dinheiro, melhorar de vida e ganhar um corpo malhado.
Essa mentalidade, que parece honrosa por focar-se na família ao invés da prostituição, por se preocupar com os filhos ao invés de com política, nada mais faz do que exaltar e criar outro ídolo: o ídolo do conforto e da autoimagem de sucesso. Por isso, é muito comum ver nas caixas de perguntas feitas a esses influenciadores frases como “Para onde você irá se o Brasil ficar pior economicamente?”, e eles respondendo: “Eu não vou sair, o Brasil ainda é ótimo pra ganhar dinheiro”. Isso reflete uma mentalidade que não deveria ser a do cristão, pois enquanto famílias de boa renda pensam em se afastar de sua comunidade, de seus vizinhos, familiares e amigos por medo da queda no padrão de vida, padres e pastores se recusavam a deixar a Ucrânia quando a guerra eclodiu, pois estavam cuidando de abrigos para refugiados dentro de suas igrejas.
A verdade é que cristãos não deveriam se mover para onde há mais conforto, mas para onde podem ser bênção, para onde podem desempenhar seu papel na igreja de Cristo. Sim, nosso ministério mais próximo deve ser nossa família, mas abandonar todo nosso ministério por causa de escola particular e andar de carros importados não deveria ser uma prioridade.
Muitas mulheres são influenciadas por esses coaches modernos e, em busca de pessoas que levantem a bandeira “minha pátria é minha família”, elas desejam se casar com homens que morram não por elas, mas por ganhar dinheiro e proteger suas vidas materiais. Sim, isso é importante, mas esse não deve ser o centro, o ídolo das vidas.
Escolher um marido é escolher um sacerdote. Sacerdotes faziam a frente da guerra, e quando eles se acovardavam, todo o exército desfalecia. Ou seja, estamos sempre escolhendo parceiros para o Apocalipse. Ele precisa apresentar caráter moral e uma visão de futuro muito mais rica do que: “uma família rica sairá de mim”. Ele precisa desejar progredir e sustentar sua família, mas o mantra, o principal, deve ser alguém que vai educar cristãos para uma guerra cultural, que vai criar homens e mulheres de Deus, que vai ter coragem de tomar a frente, pois os problemas desse mundo não são apenas materiais, mas principalmente morais. Deixar uma herança não é deixar um legado. Deixar uma vida ganha não é educar filhos.
Ter um homem hiperprodutivo e liberal na economia, mas que te bate, que é egoísta, que é egocêntrico e não se arrepende de seus pecados, não deve ser uma meta. Criar filhos que nunca foram catequizados ou não aprenderam pelo exemplo a tomarem decisões difíceis e a lutar lutas impossíveis, pois o pai estava preocupado apenas com a casca deles, é algo muito pobre.
Pigmaleão era um rei de Chipre e escultor. Certa vez, desejoso de produzir, através de sua arte, a beleza ideal, se propôs a esculpir a mulher perfeita. Acabou que o escultor se apaixonou pela escultura, apaixonou-se pela imagem que ele mesmo criou. A realidade não se responsabilizava por tornar possível a consumação desse amor.
Esses influenciadores dos quais escrevi criaram, da mesma forma, características (abstraídas do concreto) que supostamente formariam o que é um homem de valor ou uma mulher cientificamente positiva para um homem. Eles formam valores como se fossem de uma realeza, elencando os dez mandamentos da virtuosidade segundo suas concepções. No fim das contas, é apenas um jogo narcisista que melhor se define como “Paixão de Pigmaleão”.
A moça ou o rapaz procuram, em uma listinha pronta, características que se encaixem neste padrão, nesse personagem. Criam expectativas que nem precisam acompanhar a realidade, desde que sejam parecidas com o personagem criado por esses influenciadores. A conquista e as coisas da vida se tornam apenas um jogo de méritos. Aqueles que criaram tais listas adoram saber que estão ensinando que o cara perfeito é a ilustração de si mesmo que eles criaram, e que a mulher perfeita deve ser aquilo que narram de suas esposas (mesmo que não seja a verdade).
Tudo isso é impor uma lista que tem a ver somente com externalidades, com um personagem facilmente adquirido. Ele precisa gostar de armas, ser ambicioso e beber cerveja tal como o fulano...
O narcisismo sem tamanho os fez se apaixonarem pelo próprio personagem criado, e as pessoas amam esse discurso, pois é reducionista e fácil ao preguiçoso. É a possibilidade de comprar um cartão de visitas através de uma estética e uma lista pronta que permite o autoengano confortável.
O tão exaltado “trabalho depois do trabalho” que estes influencers recitam não deveria ser o mesmo para os cristãos — pelo menos, não absolutamente. Para o cristão, trabalho depois do trabalho deveria ser visitar casais em conflito, educar os filhos, amar sua esposa. Sua obsessão deveria ser evangelizar descrentes, ensinar os irmãos, adorar a Deus pelo que já tem. Um ministro de Cristo é alguém que já morreu — que já morreu para sua própria vida — e cujos sonhos máximos são os sonhos de Cristo. É improvável conseguir viver no nível de dedicação ao mercado que o enriquecimento lícito te exige e ser um bom pastor ao mesmo tempo.
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