When Giants Were Upon the Earth - Capítulo 13 - A Geografia do Hades
Ao ler as palavras Hades ou Submundo, a maioria dos leitores instruídos imediatamente evoca imagens da mitologia greco-romana ensinada nas escolas: uma morada sombria e nebulosa dos mortos abaixo da terra, para onde iam todas as almas dos mortais — tanto boas quanto más — após a morte. Essa região era governada por um deus de mesmo nome, Hades, e continha paisagens perigosas e criaturas bizarras
A maioria das imagens modernas do pós-vida ou do reino dos mortos no Ocidente deriva mais das punições medievais de A Divina Comédia de Dante e do Paraíso Perdido de Milton do que da Bíblia. Nelas, níveis de tortura são aplicados por anjos ou demônios e Lúcifer reina sobre o inferno. Tristemente, essas ideias não bíblicas influenciaram mais a teologia cristã do que o próprio texto das Escrituras. São histórias vívidas, mas teologicamente falsas.
Mas o que a Bíblia realmente diz sobre o submundo?Sombras (Rephaim)
Um termo bíblico usado para as almas dos mortos em Sheol é rephaim, frequentemente traduzido como sombras em português. Como afirma a Enciclopédia Bíblica ISBE:
Em Jó 26:5, ‘as sombras abaixo’ são os mortos (cf. Sl 88:10; Is 26:14). Elas habitam nas ‘profundezas do Sheol’ (Pv 9:18), onde vivem juntas na ‘assembleia dos mortos’ (Pv 21:16).” Essa assembleia é descrita em 1 Enoque como “quatro cavidades” ou fossos sob a montanha dos mortos, onde as almas aguardam o julgamento final. Uma cavidade é para os justos; outra para Abel e os assassinados injustamente; uma terceira para os ímpios que não foram punidos em vida; e a última para os ímpios que sofreram punições em vida. As almas dos ímpios sedeiam e temem o julgamento futuro (1En 22:9), mas não são torturadas por anjos ou demônios. Já os justos recebem refrigério de uma fonte de águas “com luz sobre eles” (1En 22:9; Lc 16:24).
Hades no Novo Testamento
Como o Novo Testamento foi escrito em grego, ele não utiliza o termo hebraico Sheol, mas sim o termo grego Hades. O próprio Jesus utilizou a palavra Hades para se referir ao local onde estão os espíritos condenados, em contraste com o céu como o lugar dos redimidos (Mt 11:23). Jesus também mencionou as “Portas do Hades” (Mt 16:18), um conceito submundano bem conhecido nas mitologias do Antigo Oriente Próximo e greco-romana. Isso não era apenas uma metáfora para o “poder da morte”, pois a gruta sagrada em Cesareia de Filipe, onde ele proferiu essas palavras, era considerada uma porta para o Hades.[613] O local continha uma caverna com um abismo profundo que se acreditava levar ao Abismo e ao próprio Hades.
Hades também aparece como o local dos espíritos dos mortos na parábola de Lázaro e o rico, em que o rico está em tormento no Hades (Lc 16:19–31). Dessa parábola surgiu a expressão “Seio de Abraão”, indicando a separação entre os justos e os ímpios dentro do Hades, com um grande abismo entre eles. Muitos estudiosos argumentam de forma convincente que essa parábola era uma crítica subversiva contra os mitos pagãos helenísticos sobre jornadas ao submundo e comunicação com os mortos — não uma descrição literal da geografia do Hades.
Do Sheol à Geena
Apesar da existência clara de um reino dos mortos tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, há pouca descrição específica sobre suas características além de “trevas” (Jó 17:13; Lm 3:6) e “silêncio” (Sl 31:17–18; 94:17; 115:17). A única certeza é que “quem desce ao Sheol não volta” (Jó 7:9; 10:21; 2Sm 12:23). Como resume Papaioannou:
Em primeiro lugar, Sheol/Hades é o lugar para onde todos vão ao morrer. Não há distinção entre justos e ímpios… Em segundo lugar, Sheol/Hades não é um lugar de punição escatológica, mas o destino comum da humanidade… Terceiro, não há vida ou consciência no Sheol/Hades. Diferente de outras culturas que concebiam uma existência ativa no pós-vida, a Bíblia Hebraica descreve o Sheol como um lugar de silêncio e ausência de vida, onde a existência humana chega ao fim… Não há memória no Hades (Is 26:14), nem comunhão com Deus (Is 38:18). É um lugar de esquecimento, trevas e inexistência (Jó 17:13). Assim, uma pessoa que morre deixa de existir (Ec 9:6)… Com a crença na ressurreição corporal, Sheol/Hades é apenas um lugar temporário — os mortos permanecem ali até serem ressuscitados.
Na época do Novo Testamento, alguns textos judaicos do Segundo Templo começaram a sugerir cada vez mais a ideia de recompensa imediata para os justos e punição imediata para os ímpios no Hades, antes mesmo do julgamento final. Bauckham sugere que isso pode ter sido influência grega,[619] mas o fato é que após a vinda de Cristo e sua missão espiritual, essa mudança se tornou parte da expansão do Reino de Deus. A descida de Cristo ao Hades e sua vitória sobre os principados espirituais e o poder da Morte e do Hades pode ter marcado o início das recompensas e punições imediatas no Sheol/Hades.
A palavra grega traduzida como “inferno” no Novo Testamento é Geena. Alguns acreditam que Geena era o lixão fora de Jerusalém, que queimava continuamente e foi usado por Jesus como metáfora para o julgamento. Mas pesquisas recentes rejeitam essa ideia, por falta de base exegética e arqueológica concreta. Na verdade, Geena é a forma grega para “Vale de Hinom”, que ficava ao sul e a oeste de Jerusalém.[621] Esse vale tinha uma história sombria como lugar de sacrifício de crianças ao deus subterrâneo Moloque, onde os israelitas faziam seus filhos “passarem pelo fogo”. Deus ficou tão irado com essa abominação que, por meio do profeta Jeremias, lançou uma maldição de fogo sobre o local, que foi destruído pelo rei Josias por volta de 632 a.C. (Jr 7:29–34; 19:1–15). O vale passou a ser chamado de “Vale da Matança”, tornando-se sinônimo de julgamento e destruição futuros, tanto nesta vida quanto na vindoura. A literatura do Segundo Templo e os ensinamentos de Jesus usaram Geena como metáfora para o julgamento final (Mt 13:42, 30; 25:41)
Podemos Confiar Na Cosmologia Antiga?
A antiga visão cósmica bíblica apresenta um universo em três níveis: com o trono de Deus acima das águas celestiais, um firmamento sólido sobre a terra plana, que está fundada sobre pilares, cercada por um mar circular, sobre um abismo aquático, debaixo do qual está o submundo de Sheol, onde as almas estão aprisionadas em celas de espera até o julgamento final.[635]
Surge então uma pergunta natural ao examinarmos essa cosmologia antiga: Se os autores bíblicos tinham uma visão do universo tão "cientificamente imprecisa", por que deveríamos confiar no que escrevem sobre Deus, o pós-vida e o juízo?
Alguns evangélicos bem-intencionados tentam preservar sua definição particular de inerrância bíblica negando que a Bíblia contenha essa cosmografia do Antigo Oriente Próximo. Procuram explicá-la como linguagem fenomenológica ou licença poética. A linguagem fenomenológica descreve o que se vê subjetivamente, a partir da própria perspectiva, sem pretensão de realidade objetiva. Assim, quando o autor diz que o sol parou, ou que o sol nasce e se põe dentro do firmamento, ele estaria apenas descrevendo o que observa, e não uma realidade cósmica.
Essa interpretação, embora válida até certo ponto, impõe uma distinção moderna entre aparência e realidade que não existia para os antigos.Como explica Seely:
“É justamente porque os povos antigos eram cientificamente ingênuos que não distinguiam entre a aparência do céu e sua concepção científica do céu. Não tinham motivos para duvidar do que seus olhos lhes mostravam como verdadeiro: que as estrelas estavam fixas em um firmamento sólido e que o céu tocava literalmente a terra no horizonte. Assim, igualavam aparência e realidade, e concluíam que o céu era uma parte física sólida do universo, tanto quanto a própria terra.”
Se os antigos não sabiam que a terra era uma esfera no espaço, ou que não havia um submundo físico sob seus pés, não poderiam suspeitar que suas observações eram ilusórias.
A cultura hebraica era imaginativa, integrando poesia até nas descrições da natureza. Assim, um hino como o Salmo 19 fala dos céus proclamando a glória de Deus como se tivessem voz, e descreve o sol como um noivo saindo de seu aposento ou um corredor disputando uma corrida. A imaginação criativa é inevitável e onipresente. E é aqui que pode estar a solução para o dilema da imprecisão científica da cosmologia bíblica: a cultura israelita, por ser pré-científica, pensava mais em termos de função e propósito do que em estrutura material. Mesmo que a cosmologia de três andares — com céu, terra e submundo — seja “falsa” do ponto de vista científico moderno, ela ainda comunica com precisão o propósito e o sentido teleológico da criação, que os autores buscavam transmitir.
Nosso mundo moderno, obcecado por ciência empírica e razão humana, está tão cego para sua própria ignorância sobre a realidade transcendente e tão empobrecido em imaginação, que isso se torna uma forma de idolatria — transformando a mente e os sentidos humanos limitados em deuses.
Othmar Keel, um dos principais estudiosos da arte do Antigo Oriente Próximo, argumenta que, embora representações modernas do universo antigo, como o diagrama do cosmos em três camadas, possam ser úteis, elas são fundamentalmente falhas, pois retratam um sistema mecânico fechado, profano e sem vida, refletindo nossos próprios preconceitos modernos. Para o mundo antigo, “o universo era uma entidade aberta por todos os lados. Os poderes que determinavam o mundo eram mais importantes para os antigos do que a estrutura do sistema cósmico. Uma variedade de ideias divergentes e desconexas sobre o cosmos coexistiam”
Isso não significa que o mundo físico fosse negado ou ignorado, mas que suas prioridades eram diferentes das nossas. Devemos, portanto, evitar julgar a cosmografia funcional dos antigos à luz da nossa cosmografia materialista moderna. Nesse sentido, as descrições modernas da realidade são mais “falsas” do que as imagens antigas — porque não incluem o aspecto imaterial da realidade: o significado e o propósito. Mais ainda: a observação humana do universo está sempre mudando — da física newtoniana à quântica, e desta à teoria das cordas. Essas mudanças são menos resultado de instrumentos mais precisos e mais mudanças de ideias. O que acreditamos ver é muito influenciado por pressupostos filosóficos, mais do que os cientistas costumam admitir.
Os autores bíblicos não ensinavam sua cosmografia como doutrina científica revelada por Deus sobre a estrutura do universo físico. Assumiam a cosmografia popular de sua época para ensinar sua doutrina sobre os propósitos e significados de Deus. Criticar o modelo cósmico que carrega a mensagem é perder a mensagem por completo — porque a mensagem é o que importa. O trono de Deus pode não estar fisicamente sobre nossas cabeças, sustentado por um firmamento sólido com águas acima, mas Deus verdadeiramente reina “acima” de nós e é o Rei e Sustentador da criação — independentemente do modelo cósmico utilizado por cada geração. Um heliocentrista moderno que ataca essa imagem como se ela invalidasse a teologia comete imperialismo cultural. Reduzir o significado à localização física é apenas um preconceito materialista contra o propósito espiritual.
Uma das irônias mais curiosas nesse debate é que, se a história da ciência nos ensina algo, é que daqui a mil anos, os cientistas provavelmente verão o nosso próprio paradigma atual como profundamente falho. Isso não significa que a realidade seja relativa, mas mostra que todo conhecimento empírico carrega uma dose inevitável de falibilidade e limitação humana.
A resposta apropriada seria um pouco mais de humildade — e um pouco menos de arrogância — ao usarmos nossos modelos científicos atuais como padrões para julgar o significado ou o propósito teológico.
Fim do Livro
**Este texto é um resumo feito por Paulo Barbosa com base na obra "When Giants Were Upon The Earth" de Brian Godawa. O conteúdo aqui apresentado visa fins educacionais e de discussão, conforme previsto no art. 46 da Lei 9.610/98.
***Essas postagens no blog têm o objetivo de apresentar um resumo do livro. São fragmentos selecionados e organizados por mim, de forma que fiquem coesos com o propósito de cada capítulo. Cada resumo representa, em média, cerca de 20% do conteúdo total do capítulo original.
Lembro, portanto, que o livro contém muito mais informações e explicações do autor, além de incluir centenas de fontes que embasam suas afirmações. Meu objetivo aqui foi destacar e resumir os pontos que considerei mais relevantes de acordo com os meus interesses.

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