Não seja você mesmo
A frase “Basta ser você mesmo” se tornou um jargão repetido em todos os lugares. Serve como conselho para conquistar uma garota, se sair bem em uma entrevista de emprego, causar uma boa impressão. A ideia é que, se você for verdadeiro, tudo dará certo. Mas o problema é que esse tipo de afirmação raramente é aprofundado em seu real significado.
Quando dizemos “seja autêntico”, estamos reconhecendo que ninguém pode sustentar aquilo que não possui. Não adianta pagar de intelectual se não há conhecimento, nem se fingir de atleta quando nunca se praticou esporte algum. Autenticidade não é fingir algo que não existe. Entretanto, muitos confundem autenticidade com o direito de não adequar a própria postura em nenhum ambiente. Pessoas acreditam que devem tratar a esposa como tratam os amigos, ou que podem agir no trabalho da mesma forma que agem no bar, e quando são cobradas dizem: “eu sou assim, não vou mudar, você me conheceu assim e pronto”. Isso é um absurdo. Precisamos, sim, nos esforçar para ser mais respeitosos e formais em ambientes que assim exigem, mesmo que isso não seja nossa característica natural. Não se trata de mentir sobre quem somos, mas de buscar integridade. Não basta ser um santo na rua e um monstro em casa. O verdadeiro caráter exige que o nosso “eu mais educado, mais responsável e mais maduro” se manifeste em todas as áreas da vida.
Isso significa que há momentos em que precisamos ser mais reservados e outros em que podemos ser mais extrovertidos. E não, isso não é falsidade. Falsidade é mentir, é dizer “te adoro amiga” quando, na verdade, não suporta a pessoa. Educação, ao contrário, é um dom. É a capacidade de superar os instintos mais baixos e escolher agir de maneira sábia e controlada. Ser educado é tomar o controle daquilo que queremos ser. É decidir: eu quero ser uma pessoa madura, paciente e equilibrada.
O problema é que a sociedade, em sua superficialidade, levou esse conselho para um extremo destrutivo. Hoje não basta ser você mesmo, é preciso que todos aplaudam suas escolhas, por mais imaturas que sejam. Todos os padrões sociais que serviam de harmonia foram derrubados em nome de uma “identidade pessoal” intocável. Qualquer correção ou incentivo ao amadurecimento é taxado de opressão. A frase que ecoa é: “Sou ignorante, supérfluo, ganancioso, vingativo, mas pelo menos sou verdadeiro”. É a confissão que vemos nos reality shows e, infelizmente, cada vez mais na vida real.
Quando alguém erra, perde relacionamentos ou destrói amizades, logo ouve o conselho: “deixe ir, o importante é ser você mesmo, não mude por ninguém”. Isso soa bonito, mas no fundo significa que você está defendendo os seus pecados até o fim. É como dizer: “meus defeitos são minha identidade, e não vou abandoná-los”. Seja você mesmo acaba virando um mantra para “seja satisfeito com seus pecados”.
O conselho verdadeiro deveria ser outro. Devemos sim usar uma máscara, no sentido de assumir conscientemente a postura que desejamos viver. Finja ser educado, finja ser paciente, finja ser bondoso, mas ame tanto esse personagem que você deseja ser, queira tanto se tornar isso, que ele passe a ser a sua nova identidade. Com o tempo, esse “personagem” deixa de ser fingimento e se torna parte de quem você é. Essa é a verdadeira transformação: emular e encenar aquilo que precisamos ser, sonhar com a melhor versão de nós mesmos, até que essa versão se torne realidade.
Para o cristão, isso é ainda mais profundo. O chamado não é para viver preso ao “eu mesmo”, mas para morrer para si e viver para Cristo. O apóstolo Paulo diz: “já não sou eu quem vivo, mas Cristo vive em mim”. Isso significa que o cristão não deve lutar para afirmar a própria identidade como algo absoluto, mas sim lutar para se conformar à imagem de Cristo. Ele foi comprado por um preço, não se apega mais à sua antiga vida, pois no batismo morreu para o velho eu e nasceu para uma vida nova em Cristo, seu Senhor. O cristão não deve se agarrar ao argumento de “sou verdadeiro comigo mesmo”, mas ao compromisso de ser transformado pela verdade de Cristo.
No fim das contas, não precisamos defender nossa velha identidade como se fosse sagrada. Ser “você mesmo” pode ser apenas uma desculpa para permanecer pequeno, imaturo e preso ao pecado. Ser como Cristo, esse sim deve ser o alvo.
palavras chave: seja você mesmo, autenticidade, falsidade, maturidade cristã, transformação em Cristo, caráter, vida cristã, hipocrisia, educação, integridade

0 Comentários