O cenário de catastrofismo



 O cenário de catastrofismo


No último século temos sido bombardeados por alardes sobre catástrofes, extinções e discursos ambientalistas que impregnaram o debate público. Durante a pandemia de Covid-19, por exemplo, estudos como os do Imperial College trouxeram previsões extremamente dramáticas, que acabaram por gerar histeria e medidas por vezes desordenadas em alguns países. Essas decisões afetaram economias nacionais de forma grave, podem vir a ocasionar recessões longas e alterar o curso da diplomacia mundial. Esse episódio expõe um risco real: a fé cega em especialistas, cientistas e acadêmicos quando estes se apoiam em cenários apocalípticos sem deixar claro o grau de incerteza envolvido.

No caso citado, o erro foi identificado e desacreditado com relativa rapidez, mas nem sempre temos essa sorte. Muitas previsões catastrofistas apontam para décadas à frente, e isso muda hábitos e políticas que não são testáveis em curto prazo, pois só poderão ser avaliadas como falsas anos depois. A teoria malthusiana, por exemplo, já se mostrou equivocada historicamente, foi reformulada e reaplicada em novas roupagens, servindo por vezes a interesses que vão além da ciência. Hoje a bola da vez é o aquecimento global, tema legítimo para debate científico, mas também transformado em instrumento por diversas organizações, intelectuais e ideólogos. Mesmo quando previsões anteriores falharam, muitas dessas narrativas são atualizadas e continuam a moldar comportamentos e políticas.

Existem, claro, pesquisadores cuidadosos que apresentam estudos rigorosos e convidam ao diálogo, entretanto virou moda rotular como “negacionistas” aqueles que colocam dúvidas razoáveis sobre certas teses. Negacionismo virou um rótulo pejorativo aplicado a quem questiona afirmações dominantes, e isso empobrece o debate. Ciência é justamente dúvida, questionamento e busca por propostas melhores; quando o ambiente acadêmico e institucional responde com ataques pessoais em vez de enfrentar argumentos, o progresso científico empobrece. Muitos cargos burocráticos em universidades e órgãos públicos acabam se apoiando em apelos à autoridade ou ao efeito manada para silenciar discordâncias, recorrendo com frequência ao argumento ad hominem, em vez de debater a substância das críticas.

A concentração urbana é outra peça importante nesse tabuleiro. Não concordo com a aglomeração excessiva da população em grandes centros, pois isso intensifica problemas sociais e ambientais, aumenta a criminalidade, a ansiedade, a concentração de riqueza e cria cenários de aparência catastrófica mais visíveis. Creio que políticas públicas deveriam estimular a descentralização por meio de incentivos fiscais e estímulos para que indústrias e serviços se instalem em cidades menores e áreas rurais, promovendo distribuição populacional e maior resiliência econômica. A experiência cotidiana nas metrópoles, (céu poluído, trânsito e caos) tende a gerar a impressão de que o mundo inteiro está em colapso, mas basta deslocar-se algumas dezenas de quilômetros para encontrar céus limpos, ar mais puro e muita vegetação.

Também vale lembrar que nossa percepção do planeta é recente: satélites, mídia em massa, rádio, televisão e redes sociais são invenções do último século, uma fração ínfima da história humana. Muitos desastres naturais ocorriam antes, a diferença é que hoje os vemos e viralizamos imagens instantaneamente, o que amplia o impacto emocional coletivo. Desde a Guerra Fria temos ciclos regulares de alarmismos, como El Niño, ameaça às abelhas, extinção de espécies, aquecimento, e por aí vai, que muitas vezes servem para mobilizar recursos, arrecadar fundos ou justificar mudanças políticas. Sim, devemos cuidar do ambiente e preservar espécies, mas é preciso separar medidas racionais e eficazes de pânicos ideológicos que procuram frear pesquisa e desenvolvimento em favor de agendas específicas.

Para entender melhor por que certas previsões geram tanto impacto, é útil distinguir previsão, prognóstico e cenário. Previsão é uma suposição bem fundamentada sobre o futuro próximo, aplicada quando há controle razoável sobre variáveis, como em linhas de produção ou rotas de voo. Prognóstico, como o trabalho da meteorologia, trata de probabilidades, é uma estimativa sujeita a erros. Já cenário é o mais frágil, é uma construção hipotética, cheia de “e se”, onde se pode manipular variáveis. Modelos computacionais produzem milhões de possibilidades e, frequentemente, escolhem o resultado mais catastrófico para chamar atenção. A maioria do público não entende probabilidades e suposições desses modelos, e por isso transforma cenário em previsão emergencial, o que alimenta o ciclo do medo.

Muitos dos que produzem modelos de catástrofe têm raízes na meteorologia militar da Guerra Fria, um campo naturalmente orientado a previsões para fins estratégicos. Com o fim daquela conjuntura, vários especialistas migraram para a modelagem de cenários, uma atividade que pode influenciar decisões políticas, mobilizar recursos e, não raro, atender interesses de grupos poderosos. Como dizia alguém mais direto, quem controla os mitos controla o mundo. Cabe a nós, portanto, exigir transparência nas premissas, honestidade sobre incertezas e abertura ao debate, porque só assim a ciência cumpre seu papel: não o de impor verdades absolutas, mas o de confrontar hipóteses, corrigir erros e buscar soluções reais e proporcionais para problemas legítimos.



Palavras chave: catastrofismo, aquecimento global, IPCC, previsões científicas, cenários, prognósticos, concentração urbana, descentralização, ciência e dúvida, política ambiental, modelos climáticos

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