Não fique idealizando metas de vida inflexíveis
O teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, em sua obra-prima Vida em Comunhão, faz uma longa reflexão sobre os perigos das comunhões cristãs idealizadas. Ele afirma que idealizar uma amizade, um casamento, uma igreja ou até mesmo a maternidade é o oposto da proposta cristã, porque em toda verdadeira comunhão quem media as relações humanas é Cristo. Quando idealizamos demais, a mediação deixa de ser feita por Ele e passa a ser conduzida por mim mesmo, pela minha imaginação, pelas minhas carências e pelas minhas expectativas.
O problema é que, quando alguém não corresponde a essas idealizações, a frustração revela que estávamos tentando assumir o lugar que pertence apenas a Cristo, como se fosse possível criar, com nossas próprias forças, a comunhão que só Ele sustenta. Isso acontece em famílias, igrejas, casamentos e parentalidades. Muitas vezes, sem perceber, carregamos um narcisismo e egocentrismo por trás de nossas expectativas de famílias perfeitas, esquecendo que somente Jesus é o centro capaz de reconciliar e unir os seres humanos. Quando Ele não é o mediador, voltamos àquela condição de sermos “o lobo do homem”.
Por isso, não se trata de buscar títulos ou funções específicas, como dizer “quero ser missionário” ou “quero ser pastor”. O verdadeiro caminho é buscar servir a Deus e se aproximar dEle, permitindo que o Senhor mesmo defina o que devemos ser no Seu Reino. Sempre que estipulamos metas inflexíveis, corremos o risco de deixar de ouvir a voz de Deus para seguir apenas o nosso próprio coração.
É preciso ter cuidado também com esses discursos de propósito absoluto, do tipo: “Todo pai cristão deveria fazer isso”, “Todo pastor tem que ser assim”. Essas frases, embora possam soar bonitas, criam padrões que muitas vezes não têm relevância verdadeira diante de Deus. O que é bom, adequado ou até mesmo possível para um, não é necessariamente para outro. Cada chamado é único, e aquilo que serve a uma pessoa pode não ser o caminho para outra.
Por isso, tudo deve ser colocado em oração. É diante de Deus que devemos discernir se algo é lícito, coerente e conveniente para a nossa vida cristã. Afinal, não é a força das nossas metas pessoais que nos guia, mas a direção viva de Cristo que fala, corrige e conduz.
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