O mito da cultura Japonesa superior
Recentemente vi um vídeo em que um deputado elogiava o respeito e a cidadania japoneses. Em seguida, em tom provocativo, o entrevistador afirmou que isso se devia à cultura e destacou que a cultura japonesa não tem base cristã. No entanto, aqui ocorre uma confusão evidente entre moralidade e civilidade.
Eu mesmo admiro profundamente a civilidade não apenas dos japoneses, mas dos povos asiáticos em geral. Entretanto, quando falamos de cultura moral, é impossível ignorar certos efeitos negativos herdados de tradições antigas marcadas pelo politeísmo. O Japão, por exemplo, está entre os países com maior índice de suicídio e os próprios kamikazes são uma lembrança histórica desse traço. A ausência de uma visão cristã da vida permitiu que o suicídio fosse, em determinados períodos, visto não como algo negativo, mas como um ato honroso.
Além disso, o Japão enfrenta problemas graves como idosos abandonados, relações afetivas substituídas por personagens fictícios, excesso de conteúdo sexualizado em mídias populares, pornografia extremamente difundida, entre outros fenômenos sociais. Ou seja: o povo japonês, como qualquer outro, possui virtudes e defeitos. Mas, ao tratarmos de cultura moral e religiosa, é evidente para mim que o Ocidente possui raízes muito mais frutíferas nesse aspecto.
A civilidade asiática não nasce da religião, mas de mentalidades coletivistas, das crises históricas que esses povos enfrentaram e de dinâmicas culturais internas. Isso se comprova pelo fato de que quase todos os povos asiáticos, mesmo com religiões bem distintas, apresentam comportamentos sociais semelhantes. A Coreia do Sul, por exemplo, é uma das nações com maior número de cristãos no mundo, e também manifesta essa civilidade.
Por isso, já me cansei dessa ideia ridícula de julgar o cristianismo por sua capacidade de gerar bem-estar social ou organização política. É como se o propósito máximo da fé cristã fosse criar sociedades eficientes, quando, na verdade, o centro do Cristianismo é o reconhecimento do pecado e a fé em Deus, não a engenharia social.
Mas essa confusão acontece porque a religião dominante no Ocidente hoje é uma religião oculta, que esconde seu status de religião: o secularismo, a “religião civil” que ganhou força desde a Revolução Francesa. A religião do Estado, que coloca o homem no centro e transforma sentimentos humanos no critério supremo de valor.
Essa religião civil exige que tudo seja julgado segundo sua capacidade de produzir bem-estar para a opinião pública. E um exemplo claro disso é que os atuais “guardiões morais” e puritanos (aqueles que fazem patrulha de comportamento e sinalizam virtude) são justamente os que mais desprezam o cristianismo e qualquer religião organizada. A patrulha woke, progressistas e socialistas tornaram-se o novo padrão moral: julgam obras, filmes e pessoas com régua rígida, dizendo como todos devem pensar e agir.
Enquanto isso, os cristãos, que antigamente eram vistos como “inquisidores morais”, hoje são tratados como contracultura, aqueles que riem das piadas, que não têm tantas “frescuras”, que não se incomodam com imposições sociais exageradas. Uma ironia histórica: os progressistas, que se diziam libertários, tornaram-se os novos moralistas. Mas isso ocorre porque eles são os sacerdotes da religião vigente, a religião civil. Por isso não se importam com moral cristã, nem com conceitos tradicionais de integridade, castidade, sobriedade; importam-se apenas com a moralidade secular, centrada na vontade humana.
O cristianismo não pode cair na tentação de moldar sua fé milenar para caber nesses padrões modernos, pois isso seria submetê-lo ao domínio de outra religião.

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