O mito da comprovação científica
Vivemos em tempos em que qualquer afirmação sobre valor, moral ou prática é imediatamente confrontada com a pergunta quase automática, “Mas isso é comprovado cientificamente?”. Criou-se a impressão de que tudo o que fazemos, decidimos ou acreditamos precisa esperar um selo oficial da ciência para ser legítimo. Quem fomenta e se aproveita desse ambiente são organizações globalistas que se apresentam como arautos da ciência, como se falassem em nome dela. Mas afinal, o que é a ciência? A ciência não é uma pessoa, não é uma organização, não é uma entidade homogênea, única e estática. Ciência é o nome de um processo, um corpo vivo de debates, discussões e hipóteses que, ao longo do tempo, vão formando sínteses que podem ser melhores ou piores, mais adequadas ou menos adequadas, certas ou erradas. Ciência é o estudo das repetições, das leis naturais, da investigação de padrões testáveis. Nem tudo se encaixa nessa categoria, e é uma grande ingenuidade exigir comprovação científica para fatores que não são naturais, replicáveis ou controláveis.
Não é possível guiar a própria vida apenas pelo que é considerado científico, porque esse simplesmente não é o papel da ciência. Ela não abrange todas as áreas da existência humana e, além disso, não é unânime. Pesquisadores defendem teses distintas, há divergências legítimas, há conflitos metodológicos. O problema surge quando organizações estimulam o discurso de que “a ciência decidiu” e o unem a narrativas catastróficas, como aquecimento global ou pandemias. Não estou dizendo que essas não sejam possibilidades reais, mas o terror é frequentemente enfatizado para que determinados grupos se coloquem como porta-vozes exclusivos da solução e da proteção. A lógica é simples, surge um grande problema, vocês não sabem lidar com ele, mas eu sei, então basta não me questionarem e agirem do meu jeito. Assim como alguns dizem ser a personificação da igreja ou da religião, outros se apresentam como a personificação da ciência.
O termo comprovação científica tornou-se obscuro. Muitos o utilizam como se fosse um selo absoluto, enquanto certos grupos tentam monopolizar seu uso como viés de confirmação. Ciência é debate, progressão e hipótese, não censura. No entanto, a comunidade científica contemporânea muitas vezes demonstra uma intolerância que lembra períodos obscuros da história, hipóteses são ridicularizadas, zombadas, bloqueadas antes mesmo de amadurecerem, enquanto outras, igualmente frágeis, recebem espaço por causa de militâncias barulhentas e do humanismo ideológico dominante em grandes instituições. Perspectivas criacionistas, por exemplo, frequentemente enfrentam barreiras acadêmicas para serem publicadas, enquanto determinados temas são protegidos por blindagens políticas. Durante a pandemia, discutir tratamentos precoces chegou a ser tratado como tabu, independentemente da qualidade das evidências apresentadas. A ciência tornou-se politizada justamente por aqueles que insistem em afirmar que o cientista é neutro.
Além disso, é preciso entender que comprovação científica não é algo binário, não é simplesmente ter ou não ter. A confirmação de uma hipótese ocorre de forma gradual, com graus variados de certeza. Não se pode exigir o mesmo nível de evidência estatística para a origem do universo que se exige para a análise de uma enzima em laboratório hoje. Não se pode comparar medicamentos desenvolvidos há décadas com tratamentos recentes e exigir o mesmo acúmulo histórico de dados. Pedir níveis idênticos de comprovação para realidades tão distintas demonstra desconhecimento do próprio funcionamento da ciência. Isso não significa que não existam evidências, significa apenas que evidência não é sinônimo de certeza absoluta. Na prática, dentro da própria ciência, nada é “comprovado” no sentido filosófico final, o que se alcança é a melhor explicação disponível diante das evidências limitadas atuais.
É legítimo que governantes, médicos e cidadãos tomem decisões baseadas em boas evidências, mesmo que não sejam definitivas. Se um medicamento apresenta indícios consistentes de ajudar em uma doença grave, o retorno pode ser altíssimo, salvar uma vida, enquanto o risco pode ser baixo se se trata de algo já conhecido há décadas. Nesse caso, a evidência é suficiente para a decisão. Todas as nossas escolhas envolvem risco e retorno. O mesmo raciocínio vale para questões mais profundas. Qual o retorno caso Deus exista? Se Ele for real, todo o sentido da vida e a eternidade estão em jogo. Diante de algo tão importante, é racional considerar as evidências disponíveis e agir de acordo com elas. Não é necessário, nem possível, exigir o mesmo tipo de comprovação que se exige para uma ligação covalente ao refletir sobre a existência de uma inteligência moral por trás da criação do mundo. São campos distintos, métodos distintos, naturezas distintas de evidência.
Não temos comprovação científica de que devemos ser livres, de que a vida humana possui valor intrínseco, de que todos somos iguais ou de que a justiça é superior à injustiça. Essas convicções não nascem do microscópio ou do tubo de ensaio, mas de outras áreas do conhecimento, como filosofia, ética e teologia. Nem tudo é passível de tratamento científico, algumas coisas são autoevidentes, outras exigem reflexão racional, outras pertencem à experiência moral humana. A ciência deve ser usada com respeito e gratidão, mas também com consciência de suas limitações. Quando a colocamos como árbitro absoluto de todas as esferas da vida, deixamos de compreender tanto a grandeza quanto os limites do próprio método científico.
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