Teologia da Prosperidade Afetiva

 


Teologia da Prosperidade Afetiva


Existe um tipo de teologia, ou melhor, um senso comum disfarçado de espiritualidade, que foi se formando no imaginário evangélico e que podemos chamar de teologia da prosperidade afetiva. É a ideia de que certas conquistas nas áreas afetiva, sexual, familiar e parental te colocam em uma posição espiritual privilegiada. Como se fossem sinais visíveis da bênção de Deus. Se você se casou, teve mais de três filhos, nunca passou por nenhuma crise conjugal, nunca se separou, nunca teve qualquer luta com sua sexualidade, então você venceu essa área da vida. Está acima de qualquer suspeita. É abençoado, bem-sucedido e próspero. Por outro lado, se você é solteiro, não tem filhos, passou por um divórcio, ou mesmo se enfrenta alguma luta na área da sexualidade, então sua vida é vista como carente da bênção divina. Você é classificado quase como alguém espiritualmente suspeito, alguém que não deu certo, alguém que está abaixo da régua.

Mas eu fico pensando: como fica a vida afetiva de Jesus nesse cenário? Um homem solteiro, sem filhos, que nunca teve relações... Como seria o currículo afetivo do Messias diante dessa régua da prosperidade emocional? Pois é... pela lógica dessa teologia, nosso Senhor não teria provado a “bênção” completa de Deus.

É claro que devemos buscar uma vida que agrade a Deus, nos aproximar da maturidade e da sabedoria, trabalhar para que nossa vida familiar seja saudável, estável, coerente com os princípios do Evangelho. Mas isso não nos dá autoridade para colocar esse jugo sobre os ombros dos outros, como se esse tipo de conquista fosse o que definisse quem é cristão de verdade. Muito menos devemos aplicar isso sobre nós mesmos como se qualquer falha fosse um indicativo de reprovação divina. Ore sobre sua vida, se esforce em corrigir erros, enfrente suas fraquezas e pecados com seriedade, mas entenda também que o fato de sua vida não parecer com um comercial de margarina não significa que você foi rejeitado por Deus.

Sim, buscar uma vida de pecado, como no caso da homossexualidade vivida com orgulho e militância, é sim uma rebelião contra o plano de Deus. Mas ter uma vida que não se encaixa perfeitamente nos moldes idealizados por outros não é, por si só, pecado. Só significa que seu chamado é diferente. Essas formatações do que seria “a vida cristã ideal” são muitas vezes construções humanas, nascidas de uma tentativa de criar uma aristocracia espiritual, onde só é reconhecido como bem-sucedido quem alcançou certos marcos sociais e afetivos. O problema disso é que o centro da vida cristã vai se deslocando de Cristo para as conquistas.

A família tradicional não é aquela modelada por novelas, comerciais ou expectativas sociais, mas aquela formada por um homem e uma mulher caminhando juntos dentro dos propósitos de Deus, em complementariedade. É claro que a instituição da família não pode ser desfigurada, ela tem um padrão estabelecido por Deus: um homem e uma mulher que deixam pai e mãe, se unem sob a autoridade de Cristo, vivem como uma só carne. Mas isso não significa que toda família vá seguir um modelo pronto e padronizado. Talvez você e sua esposa não tenham filhos, talvez adotem, talvez a esposa ganhe mais do que o marido. São variações legítimas dentro de um modelo que segue os princípios da Palavra.

Alguns profetas dessa teologia da prosperidade afetiva — muito comum também em ambientes católicos — chegam a desprezar a adoção. Dizem que não é o ideal. Mas se esquecem que a própria teologia cristã é baseada na ideia de adoção. Todos fomos adotados por Deus. Criticar ou desprezar a adoção é criticar uma das verdades mais belas do Evangelho. É como os teólogos da prosperidade financeira, que acham que Jesus morreu para dar um Honda Civic. Esses, por sua vez, acham que o propósito da vida cristã é atingir um status emocional ou familiar, como se essa fosse a maior expressão da vontade de Deus.

Não se trata de desprezar o ideal. Muitas dessas coisas realmente são desejáveis, trazem equilíbrio, segurança, estabilidade. Mas o fato de elas não estarem presentes na sua vida hoje não significa ausência de Deus. Assim como na teologia da prosperidade financeira, onde se prega que a falta de riquezas é sinônimo de maldição, aqui se prega que a falta de filhos, de um casamento perfeito, ou de estabilidade emocional significa que Deus se afastou. Isso é mentira. É proveitoso que um cristão tenha recursos, mas isso não é sinal automático da presença do Espírito. Da mesma forma, é ótimo que tenha uma família estruturada, mas isso não define sua posição diante de Deus.

Você pode ter enfrentado divórcio, pode não ter tido muitos filhos, pode ter passado por instabilidades. Mas suas aflições não são sinal de derrota espiritual. O que importa é a sua postura diante das adversidades. Continue buscando maturidade, lute por uma boa relação conjugal, cuide dos papéis na sua casa, eduque bem os filhos que tem ou venha a ter, deseje uma descendência que honre a Deus. Mas entenda que não alcançar todos os “itens da lista” não significa que você está fora do plano de Deus. Às vezes você não pode ter filhos, às vezes não tem condições de dar a educação clássica dos sonhos. Isso não faz de você um renegado. Isso faz de você um cristão real, com uma vida real, seguindo fielmente o seu chamado — mesmo que ele não pareça com o de ninguém à sua volta.



palavras chave: teologia da prosperidade afetiva, cristianismo e família, padrão cristão de vida, casamento cristão, filhos e bênção de Deus, prosperidade emocional, adoção no evangelho, vida afetiva de Jesus, aristocracia espiritual evangélica, julgo religioso, bênçãos e sofrimento, discipulado real

Postar um comentário

0 Comentários

Ad Code

Responsive Advertisement