Simbolismo Estrutural Gnóstico
Existem basicamente duas formas de inserção gnóstica em histórias — especialmente quando falamos de elementos como alquimia, paganismo, esoterismo e hermetismo. A primeira delas é o que podemos chamar de simbolismo narrativo, ou seja, o simbolismo que vai sendo inserido de forma pontual ao longo do enredo. Ele aparece em detalhes, em diálogos, em escolhas dos personagens ou nas consequências que o autor constrói dentro da história. Um bom exemplo disso é Ziraldo. Suas obras, mesmo que pareçam superficiais à primeira vista, escondem nas camadas mais profundas posturas simbólicas que fortalecem a quebra de regras, exaltam uma pseudointeligência daquele que se opõe aos valores morais tradicionais e retratam eventos que, no fundo, defendem a divinização do ser humano e uma mentalidade revolucionária contrária aos valores cristãos. São, essencialmente, histórias de subversão e desprezo às regras, que provocam uma revolta simbólica silenciosa.
A simbologia em Ziraldo é pesada. Muitos dos autores da sua época beberam dessas fontes — estudaram ou se interessaram por religiões pagãs, ou simplesmente partilhavam de uma cosmovisão parecida, que estimava culturas e religiosidades fora do cristianismo como se fossem heranças gloriosas da humanidade. Por isso, inserem nas obras símbolos mágicos, ideias ligadas ao gnosticismo, ou até mesmo referências explícitas como a foice e o martelo, dependendo de suas convicções ideológicas. Não é só estética, é um retrato de ideias que eles querem propagar, como quem usa camiseta com estampa política, ou coloca um símbolo no carro. Eles escrevem essas ideias em histórias.
Já a segunda forma é o que chamamos de simbolismo estrutural, que exige mais habilidade do autor. Aqui, o gnosticismo não aparece em episódios isolados, mas está presente na estrutura completa da narrativa, no universo inteiro da obra. Ou seja, toda a construção do pano de fundo e do imaginário da história já parte de uma base gnóstica, e é nesse ambiente que as tramas acontecem. É o caso de Asterix e Obelix. Por trás das histórias engraçadas e aventuras aparentemente inofensivas, há uma estrutura simbólica mais profunda. Os personagens vivem em uma pequena aldeia gaulesa que resiste ao Império Romano. Isso, à primeira vista, parece só uma brincadeira histórica. Mas quando olhamos com mais atenção, percebemos que essa aldeia representa uma resistência pagã ao Ocidente cristão. Afinal, o que representa o Ocidente? Suas três colunas principais são a moral judaico-cristã, a filosofia grega e a administração romana. Na narrativa de Goscinny, essas colunas aparecem representadas por um império opressor, contra o qual lutam os druidas, os xamãs pagãos, que passam a ser vistos como heróis.
Investigando o pensamento de Goscinny sobre a França, vemos que para ele, essa aldeia simbolizava uma França ideal — uma França pagã, livre da cristandade, baseada em uma religiosidade interna e humanista, anterior ao cristianismo. Por isso, a história se passa “antes” do cristianismo — é uma forma de dar a entender que essas seriam as “verdadeiras raízes espirituais” da França, anterior à Igreja. Essa ideia é comum na narrativa alquímica desde James Anderson, e embora não tenha base histórica real, é uma mitologia criada por eles mesmos, em que a figura druida é idealizada e mistificada, assumindo o lugar de autoridade espiritual da modernidade alternativa.
Outro exemplo simbólico profundo e estrutural é a presença constante do ferreiro e do peixeiro, dois personagens secundários que sempre aparecem brigando nas histórias. À primeira vista, parece só uma piada recorrente, um elemento cômico qualquer. Mas a repetição disso revela algo mais profundo. O ferreiro, nas tradições alquímicas e herméticas, representa aquele que domina os elementos, que transforma os metais, que manipula a natureza — é uma figura mística da transmutação. Já o peixeiro pode simbolizar o cristianismo, pois o peixe é um símbolo tradicional cristão. Assim, o conflito constante entre eles representa mais do que uma simples briga de mercado: é uma representação simbólica da batalha entre duas cosmovisões, entre o mundo da alquimia gnóstica e o mundo da fé cristã.
Outro ponto que precisa ser dito é a estratégia usada por algumas empresas, que adotam uma tática de dualidade. Lançam alguns filmes ou histórias completamente neutras, aparentemente inofensivas, e, em outros momentos, soltam obras recheadas de simbolismo gnóstico. Isso gera a impressão de equilíbrio e até de moderação, fazendo com que muitas pessoas pensem que as acusações de gnosticismo são exagero ou teoria da conspiração, porque conseguiram encontrar “obras limpas”. Mas essa é justamente a estratégia: esconder o veneno entre as frutas boas.
A gnose trabalha com esse espírito zombeteiro, semelhante à famosa cena do filme Clube da Luta, onde o personagem Tyler fazia xixi na sopa do restaurante e deixava isso como uma marca de desprezo. O importante para esse tipo de mente não é que todos percebam a zombaria, mas que aqueles que fizeram saibam que ela está lá. Funciona como uma piada secreta. Sendo assim, as estratégias da gnose dentro de livros de contos de fadas e vitrais de igrejas não passam de uma zombaria ao cristianismo como alguém que cospe em um refrigerante antes de devolver ao outro. É como colocar símbolos que representam um diálogo anticristão dentro de obras infantis, que os filhos dos cristãos liam, que muitos desses cristãos adoravam sem perceber e colocavam com orgulho em suas estantes. Além, é claro, de serem uma piscadela para aqueles que conhecem a gnose, que podem ler e se divertir ao ver como conseguiram inserir uma mentalidade das trevas dentro de obras alternativas. Somente quem tem esse conhecimento de superinterpretação consegue enxergar os valores que estão ali escondidos.
Eu não estou dizendo que você não deve ler esse tipo de obra, ou que isso vai te afetar de forma mística. O que eu estou dizendo é que você precisa conhecer os princípios da sua fé e deixar de consumir essas coisas apenas como um espectador passivo. Você precisa aprender a questionar os valores que estão sendo apresentados, como a própria Bíblia nos orienta quando fala sobre discernir os espíritos.
Ao consumirmos entretenimento, nossas defesas cognitivas ficam relaxadas, então esse se torna um meio ainda mais fácil para absorver opiniões e visões de mundo sobre diversos assuntos. E, sem perceber, quando nos damos conta, estamos replicando — mesmo que de forma não intencional — opiniões e estilos de vida que recebemos de alguma série ou filme.
O que eu convido aqui não é que você se torne um intelectual, alguém que faz análises linguísticas complexas ou interpretações acadêmicas, mas que aprenda a discernir as ideias presentes nas obras que consome, para que consiga colocá-las no lugar certo. Obras gnósticas, que zombam dos valores cristãos, não devem ocupar lugar de destaque em nossas vidas, muito menos serem indicadas para crianças — que têm uma defesa ainda mais reduzida. Elas podem até ser vistas, mas precisam ser tratadas com discernimento.
A verdade é que só quem conhece esse mundo de simbolismo consegue perceber a mensagem oculta. A maioria das pessoas nunca verá. Mas quem tem esse olhar mais treinado, quem estudou o que significam essas imagens, começa a ver que há muito mais sendo contado do que parece à primeira vista.
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