Você Não Precisa Odiar a Modernidade
Um dos principais efeitos da modernidade foi fazer com que as pessoas acreditassem que tudo que é novo é automaticamente melhor. E de fato, em áreas como a tecnologia, há progresso mensurável e evidente. Mas na religião, na filosofia e nas artes, as coisas não funcionam assim. Nesses campos, não existe uma linha de evolução que vá do ruim ao excelente. Existe profundidade, tradição, ruptura e resgate. Existe sabedoria atemporal. Como cristãos, é evidente que precisamos estar alertas ao retorno e à reinvenção de práticas perversas, disfarçadas de inovação. O pecado é criativo, e o mundo sempre vai tentar distorcer a verdade, inclusive dentro da própria igreja. Por isso, há motivos legítimos para críticas e muitas vezes, elas são necessárias. Mas isso não nos dá base para rejeitar tudo o que vem do tempo presente. Devemos rejeitar o que corrompe, não tudo que é novo. Nem tudo que vem da modernidade é maligno. Nem tudo que é antigo é puro.
Muitos cristãos hoje têm críticas válidas à música worship, às modas passageiras nas igrejas, ao desejo exagerado de adaptação à cultura. De fato, há muita coisa triste e desprezível nisso. Mas precisamos ser cuidadosos para não cair na armadilha de rejeitar o todo por causa de partes corrompidas. Cristo chamou povos de todas as nações e culturas para adorá-lo, reconhecendo que cada um deles carrega dons, expressões artísticas e culturais distintas. Assim como nações diversas foram incluídas no plano de redenção, os tempos também revelam novos povos e comunidades, inclusive dentro da própria juventude. Jovens que surgem com novas formas de vestir, de cantar, de se expressar, e que podem, sim, estar sendo movidos pelo Espírito Santo.
Preferir os hinos antigos, os corinhos ou o terno e gravata não está errado. Mas é preciso entender que Deus está restaurando todas as coisas para a sua glória, inclusive a criatividade e a expressão cultural humanas. Se forem purificadas pelo Espírito, até as roupas estampadas e os sons eletrônicos podem louvar o Senhor. O que define a adoração não é a estética, mas a intenção e o coração por trás dela.
A música gospel, ou worship, é um produto, assim como o atendimento de um médico cristão ou o trabalho de um engenheiro cristão. A diferença é que, dentro do imaginário evangélico, a música se tornou quase um objeto sagrado em si, o que não é bíblico. A música cristã só se torna adoração quando é entoada por alguém que foi alcançado por Cristo, alguém redimido pela cruz. Na boca de qualquer outro, é só mais uma canção. Não é o mercado que define o que é culto, é a condição de quem presta o culto.
O problema não está na existência de novidades, mas em nossa falta de discernimento. Precisamos distinguir o que é realmente profano daquilo que é apenas diferente da nossa preferência pessoal. O risco é confundir gosto com santidade, e rejeitar irmãos sinceros que vivem e adoram de maneira distinta, mas bíblica. É natural que existam conflitos entre gerações. É esperado que uma geração torça o nariz para a aparência e o som da nova. Mas essas novas expressões podem ser legítimas. Podem ser bíblicas. Podem ser sinais da obra contínua de Deus no meio do seu povo.
Ao mesmo tempo, a igreja precisa estar atenta ao outro extremo: o perigo da acomodação ao pecado por meio da legalização social. Nos anos 80, por exemplo, muitas igrejas no Brasil se posicionaram duramente contra as leis de divórcio. Pastores diziam que jamais se acostumariam com isso, mesmo que fosse legalizado. No entanto, com o passar do tempo, muitos desses mesmos líderes normalizaram completamente o divórcio, chegando ao ponto de trocar de esposa por interesse pessoal e exibir sua nova mulher como troféu no púlpito. O mesmo temor se aplica hoje às pautas como o aborto, a legalização das drogas e tantas outras que batem à porta. A igreja oscila entre dois extremos perigosos: ou rejeita tudo e não redime nada, ou abraça tudo e se perde completamente.
O que precisamos é de discernimento espiritual. Precisamos aprender a ser sal, não só gritar contra o mundo, mas purificar o que há de bom nele. Resgatar, transformar, santificar. Lançar fora o fermento maldoso, mas aproveitar a farinha boa, discernindo o que pode e deve ser usado para a glória de Deus. A modernidade não precisa ser odiada, mas deve ser passada pelo crivo do Espírito. E somente com humildade, coragem e maturidade conseguiremos viver nesse tempo sem nos conformar com ele, e ainda assim sem cair no desprezo por tudo que ele produz.
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