"Veja o meu currículo e veja o seu, eu sou um PHD"

 


"Veja o meu currículo e veja o seu, eu sou um PHD"


Esse texto é uma carta aberta a um palestrante que, dias atrás, participou de uma bancada de rádio. Durante a conversa, ele iniciou um embate com o apresentador e, num gesto de arrogância, passou a ostentar seus títulos acadêmicos com frases do tipo: "Olha o meu currículo e olha o seu", "Quem fez mais pela sociedade?", "Eu sou PHD"... Pois bem, essa é a resposta que eu daria a ele.

Rasgue seu diploma, pois ele não lhe rendeu educação nenhuma.

Todo o conhecimento que se produz, que se estuda, que se desenvolve, deveria ter como fim último servir à vida humana com dignidade, respeito e virtude, promovendo uma sociedade mais saudável e justa. Se o fato de ter sido aprovado por uma instituição acadêmica gerou em você um sentimento de superioridade, então o que você tem não é sabedoria, mas ignorância mascarada de prestígio. Isso só revela o quanto estamos falhando como sociedade, supervalorizando ferramentas ao invés do propósito, a forma ao invés do conteúdo.

Pessoas que acumulam conhecimento técnico e capital econômico, mas são incapazes de desenvolver empatia, humildade ou autocontrole, não conquistaram nada de realmente significativo. A questão que precisa ser feita é: por que eu preciso ser um PHD? Por que eu preciso ser alguém? Por que preciso ser aplaudido? O que, de fato, ganho com isso? Isso não é um destino obrigatório para ninguém. Se você quis esse caminho por vocação, ótimo. Mas não trate como se todos tivessem que desejar e trilhar o mesmo. O que você chama de “avanço” pode, na verdade, estar aprofundando os problemas da sociedade, caso não seja guiado por virtudes e responsabilidade moral. Um teórico sem virtudes não conduz à evolução, mas ao erro e à destruição.

Cada pessoa tem seu valor, seus encargos e suas limitações. Seus méritos são reais, mas também são frutos das oportunidades que você teve. A verdadeira medida está no que fazemos com o pouco que recebemos. Alguém que doa cinquenta reais ganhando oitocentos é, sem dúvida, mais caridoso do que quem doa o mesmo tendo um milhão. Uma senhora analfabeta que consola o próximo em meio ao próprio sofrimento tem muito mais a oferecer do que um intelectual que, com todos os seus recursos, escreve um artigo sobre investimentos burgueses. O que realmente importa é quanta sabedoria conseguimos extrair do pouco conhecimento que tivemos acesso.

Só porque você é ovacionado em uma comunidade acadêmica fechada em suas torres de marfim, onde um bajula o outro em busca de prêmios e reconhecimentos simbólicos, isso não faz de você alguém superior. Se não consegue ser empático, humilde, respeitoso e virtuoso, todo esse seu conhecimento não passa de um espelho mágico, diante do qual você se pergunta: “Espelho, espelho meu, existe alguém mais capacitado do que eu?” Mas sua capacidade, sem virtude, não vale nada, é apenas mais uma bolha de sabão, e você, mais um servo preguiçoso e infiel que enterrou seus talentos para contemplar sua autoimagem.

O seu trabalho pode até melhorar indicadores econômicos, mas não cura caráter doente, corações arrogantes ou almas aflitas. Não transforma em gente melhor os desesperados, os narcisistas, os soberbos. Alguns dos piores tiranos da história tinham muito dinheiro, muito status, e nenhum caráter. Então reflita: suas contribuições são mesmo relevantes ou só parecem importantes para quem está dentro da bolha? A área que você supostamente transforma é apenas um grão de areia diante da imensidão de fatores que constroem a vida humana, e em cada um desses fatores há pessoas essenciais: o gari que limpa a rua, o pai que transmite segurança, o irmão que oferece fraternidade, o amigo que escuta as mágoas. Um bom amigo vale muito mais na hora do sofrimento do que um intelectual na televisão exibindo seus títulos.

Você, “doutor em economia”, não é mais importante. Você é humano, com seus medos, suas neuroses, seus pecados. Estudar é bom, claro, mas estuda-se para servir, para colaborar com a sociedade. Muitas civilizações economicamente ricas entraram em colapso, e isso prova que a vida é muito mais do que planilhas. O que sustenta uma sociedade é respeito, força moral, coragem, empatia e trabalho honesto. Se você desprezou tudo isso para correr atrás de um diploma, e hoje age dessa forma, não diga que foi por causa da sociedade. Foi pelo seu ego.

Você tem um palanque, fala para centenas. Isso não o torna melhor do que quem fala para cinco. Na verdade, só aumenta sua responsabilidade e as tentações que precisa enfrentar: o orgulho, o desejo de controle, a vaidade do reconhecimento. Seus erros influenciam mais gente, e por isso, sua alma está sob maior provação. Peça misericórdia a Deus, pois talvez essa influência que você tanto valoriza seja um espelho do seu egocentrismo.

Você só tem essa moral que imagina possuir por causa da convenção da sociedade atual, que atribui valor simbólico ao diploma, ao dinheiro e à visibilidade. Mas nada disso é objetivo ou eterno. Seu status é sustentado por um arranjo social passageiro, e quem mais aplaude isso são justamente os que se beneficiam disso — universidades, colegas de profissão, e os que esperam o mesmo reconhecimento. Fora desse pequeno ciclo, o mundo real continua acontecendo, cheio de dores, desafios e vidas marcadas por quem ama de verdade e se sacrifica no anonimato.


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