When Giants Were Upon the Earth - Capítulo 10 - A guerra Contra o Paganismo
Com as descobertas, nos séculos XIX e XX, de textos religiosos pagãos oriundos de culturas do Antigo Oriente Próximo (como Babilônia, Assíria e Ugarite), a erudição bíblica passou a reconhecer diversos paralelos literários entre as Escrituras e a literatura dos inimigos de Israel. Os hebreus compartilhavam muitas palavras, imagens, conceitos, metáforas e gêneros narrativos com seus vizinhos. E os autores hebreus das Escrituras, às vezes, incorporavam essa mesma imaginação literária em seus textos.
No que diz respeito a esses paralelos literários entre a Bíblia e o antigo Oriente Próximo, os estudiosos liberais tendem a enfatizar as semelhanças, minimizar as diferenças e construir uma teoria de evolução da religião de Israel, de um politeísmo primitivo até o monoteísmo tardio. Em outras palavras, essa abordagem é antropocêntrica, centrada no ser humano. Por outro lado, os estudiosos conservadores tendem a ressaltar as diferenças, minimizar as semelhanças e interpretar as evidências como indicativo da radical singularidade da religião israelita. Ou seja, uma abordagem teocêntrica, centrada em Deus. Ambas as hermenêuticas cometem erros opostos.
A doutrina ortodoxa da inspiração das Escrituras afirma que elas são compostas de palavras humanas “sopradas por Deus” (2Tm 3:16). Homens escreveram movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1:20–21). Trata-se de uma realidade “tanto divina quanto humana” de autoria celestial e terrena. Embora eu afirme o lado divino da Palavra de Deus, neste capítulo ilustro como os autores do Antigo Testamento usaram a imaginação dos inimigos como uma polêmica contra as religiões e divindades pagãs. Essa é a natureza da narrativa subversiva, o ato de entrar na narrativa cultural da oposição, recontá-la a partir de seu próprio paradigma ou cosmovisão e, assim, capturar aquela narrativa cultural. Deus utilizou subversão literária na Bíblia como forma de confrontar os falsos deuses e ídolos de sua época.
Em 1929, uma escavação arqueológica em um monte no norte da Síria chamado Ras Shamra revelou os restos de uma importante cidade portuária chamada Ugarite. Entre os achados mais importantes estavam tábuas literárias que abriram uma nova compreensão da cultura do antigo Oriente Próximo e da própria Bíblia. Essas tábuas incluíam textos religiosos siro-cananeus sobre deuses pagãos mencionados no Antigo Testamento. Um deles era Baal (grafado também como Ba’al).
Embora o substantivo semítico baal signifique “senhor” ou “mestre”, ele também era usado como nome próprio do deus cananeu das tempestades.No ciclo narrativo de Baal de Ugarite, El é o supremo “pai dos deuses”, que habita um monte cósmico. Um conselho divino de deuses, chamados “Filhos de El”, o cerca disputando posição e poder. Quando o deus Mar (Sea) é coroado por El e recebe um palácio, Baal se levanta e o mata, assumindo seu lugar como “Altíssimo” entre os deuses (exceto por El). Um templo é construído e uma festa celebrada. Então, a divindade Morte insulta Baal, que desce ao submundo e é derrotado. Mas Anat, a irmã violenta de Baal, caça Morte, o despedaça e traz o corpo de Baal de volta à terra, onde ele é revivido, apenas para lutar novamente com Morte até um impasse.
Na Bíblia, Baal é usado tanto como o nome de um deus específico, quanto como termo genérico para diversos ídolos adorados por Israel em estado de apostasia. O nome também aparece associado a localidades, como Baal-Hermom e Baal-Zefom, indicando manifestações do mesmo deus em diferentes contextos cananeus. Em termos simples, Baal estava por toda parte em Canaã. Ele era o principal deus da terra. Elias enfrentou o culto generalizado a Baal em Israel (1Rs 18). No século VIII, Oséias denunciou a intimidade adúltera que Judá e Israel mantinham com Baal (Os 2:13, 16–17). E no século VII, Jeremias teve que lidar com uma infestação do culto a Baal em Judá (Jr 2:23; 32:35). A adoração a Baal foi tão cancerígena ao longo da história de Israel que Yahweh teve de intervir periodicamente com manifestações dramáticas de autoridade para conter a infecção espiritual que contaminava o povo. Mas guerras físicas e milagres não foram o único meio de confronto. Deus também usou história, imagem e metáfora. Ele usou imaginação literária.
A subversão literária era comum no mundo antigo como forma de provocar a derrubada ou o ofuscamento de uma divindade e de um sistema de crenças por outro. Por exemplo, a grande deusa Inanna, considerada a Rainha dos Céus na antiga Suméria, foi substituída por sua contraparte babilônica, Ishtar. Da mesma forma, os israelitas haviam saído do Egito, onde Yahweh literalmente zombou e derrotou os deuses egípcios por meio das dez pragas (Êx 12:12; Nm 33:4). O faraó alegava ser um deus e, segundo textos egípcios, era o “possuidor de um braço forte” e de uma “mão poderosa.” Portanto, quando Yahweh repetidamente martela a mensagem de que Israel seria libertado pelo “braço forte” e “mão poderosa” de Yahweh, a ironia polêmica é evidente. Yahweh usou uma imagem literária subversiva que, na prática, dizia: “O faraó não é deus, Eu sou Deus.” Nada como uma queda de braço para mostrar quem é mais forte.
Mas agora, Deus está conduzindo Israel para a Terra Prometida, que é muito diferente de onde vieram, com deuses muito diferentes. O deus da chuva dos céus, nessa nova terra, era considerado o deus da tempestade: Baal. Agora o texto bíblico começa a refletir essa linguagem do deus da tempestade ao se referir ao Deus de Israel. Assim como o uso do “braço forte de Yahweh” serviu como poesia polêmica contra o suposto braço forte do faraó, Yahweh inspira os autores bíblicos a usarem imagens de água e tempestade para construir uma narrativa contra o suposto deus da tempestade, Baal. Não é Baal quem cavalga em sua carruagem de nuvens desde a montanha divina Saphon; é Yahweh quem cavalga as nuvens como uma carruagem desde o monte Sinai. Não é Baal quem lança relâmpagos com fúria; é Yahweh cujo relâmpago destrói os inimigos. Não é Baal quem irriga a terra de Canaã com orvalho de sua testa; é Yahweh quem faz descer orvalho do céu.
O Salmo 29 contém tanta poesia em comum com os poemas cananeus que muitos estudiosos do Antigo Oriente consideram que ele seja um hino cananeu a Baal reescrito com o nome Yahweh no lugar de Baal. Deus não estava apenas despossuindo fisicamente os cananeus de sua terra, mas também estava despossuindo literariamente os deuses cananeus. Quem ignora o poder da apropriação cultural, está exposto a uma fraqueza terrível, afinal, a dominância dos simbolos e da cultura é uma arma potente e ideológica até os dias atuais. A apropriação da cultura cananeia pelo Antigo Testamento é um caso de subversão, não sincretismo é uma derrubada das narrativas culturais, não uma mistura com elas.
O Dragão e o Mar
O segundo elemento narrativo do ciclo cananeu de Baal que quero abordar é o conflito de Deus com o dragão e o mar. Nas mitologias religiosas do antigo Oriente Próximo, o mar e o dragão marinho eram símbolos do caos que precisavam ser vencidos para trazer ordem ao universo ou, mais precisamente, à ordem política mundial da cultura que originava o mito. Alguns estudiosos chamam essa batalha de Chaoskampf, a luta divina para criar ordem a partir do caos. Relatos de criação eram frequentemente polêmicas disfarçadas, que justificavam o direito de um rei ou reino à soberania. A repulsão e destruição do inimigo, e assim a manutenção da ordem política, sempre constituem uma das dimensões principais da batalha contra o caos.
O fato de a Escritura hebraica compartilhar palavras, conceitos e histórias com os textos ugaríticos não significa que Israel esteja afirmando a mesma mitologia ou panteão de deuses. O cristão ortodoxo não precisa temer as similaridades literárias entre a imaginação israelita e a cananeia. A imaginação comum brota do que o estudioso do Antigo Testamento John Walton chama de “ambiente cognitivo comum” entre povos que compartilham espaço, tempo e cultura.
A história de um cavaleiro das nuvens que controla os elementos e batalha contra o Mar e Leviatã para estabelecer sua soberania sobre outros deuses e instaurar uma nova ordem mundial não é um “mito falso”. É uma narrativa compartilhada entre Israel e seus vizinhos pagãos, que os autores hebreus apropriam, sob a autoridade divina de Yahweh, como metáfora dentro de seu próprio discurso. Deus utiliza essa conexão cultural para subverter essas palavras, conceitos e histórias, dando-lhes novo significado e propósito poético.
Grandes pais da fé também utilizaram essa mesma técnica de narrativa subversiva. Curtis Chang, em seu livro Engaging Unbelief (Engajando a Incredulidade), explica como Agostinho escreveu sua obra “A Cidade de Deus” para defender a fé cristã dentro do Império Romano, usando narrativa histórica urbana saturada de referências e temas da literatura clássica romana. Ele subverteu aquela “Cidade dos Homens” ao expor o orgulho destrutivo escondido em toda construção social humana.
O evangelista universitário Curtis Chang descreve essa estratégia retórica como um processo em três etapas:
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Entrar na história do adversário
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Recontar essa história
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Capturar essa história reinterpretada com a metanarrativa do evangelho
Ele escreve que o desafio de cada época na história é uma disputa de narrativas: um esforço para “derrubar e substituir a história herdada da época com sua própria metanarrativa... Aquele que consegue contar a melhor história, em certo sentido, vence a época.”
A defesa do evangelho em nossa época hostil exige cristãos ousados, que entrem nas narrativas da nossa cultura e as recontam com novas perspectivas corajosas e criativas. Eu tenho citado repetidamente J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis como exemplos de autores subversivos que mergulharam nos gêneros e mitologias dos mundos pagãos para redirecioná-los à imaginação cristã. Tolkien, em sua Terra Média, preencheu seus mundos com personagens mitológicos nórdicos — magos, anões, elfos, gigantes, trolls e outros. Lewis, em Nárnia, saturou suas histórias com uma variedade de criaturas oriundas de mitologias pagãs diversas — todas deliberadamente submetidas ao Senhorio de Aslam.
Existem também bons exemplos no cinema, como histórias de zumbis com redenção cristã (Eu Sou a Lenda) e Thrillers pós-apocalípticos que honram a Deus (O Livro de Eli).
Encerrando, deixo uma pergunta e um chamado: com duas exceções, por que todos esses filmes que encarnam subversivamente a cosmovisão cristã foram feitos por não cristãos — e não por cristãos?
Levantem-se, ó contadores de histórias cristãos, e subvertam a imaginação do mundo!
**Este texto é um resumo feito por Paulo Barbosa com base na obra "When Giants Were Upon The Earth" de Brian Godawa. O conteúdo aqui apresentado visa fins educacionais e de discussão, conforme previsto no art. 46 da Lei 9.610/98.

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