Capitulo 6 - Monstros, Anjos e Acusadores
Ás vezes é difícil fazer com que alguns crentes religiosos valorizem o uso da imaginação no gênero fantasia. Mas quando se trata de recontar uma história da Bíblia, nem pense em juntar essas duas coisas. Isso para muitos beira o absurdo, uma adulteração da Palavra de Deus, digna da maldição de Apocalipse 22 contra aqueles que “acrescentarem ou retirarem palavras deste livro”. Ou, ao menos, é isso que acreditam muitos crentes bem-intencionados.
Acredito que essa reação negativa vem de uma intenção essencialmente boa: o desejo sincero de proteger suas histórias sagradas, para que não sejam rebaixadas ao nível dos mitos pagãos. No entanto, uma boa intenção nem sempre resulta numa compreensão bíblica profunda. O que muitos desses crentes não sabem é que os próprios hebreus antigos, que consideravam as Escrituras como o texto sagrado contendo as palavras do próprio Deus, também escreveram essas Escrituras utilizando imagens e motivos pagãos.
Os antigos judeus gostavam de narrar suas histórias bíblicas com embelezamentos literários, o que hoje chamamos de apócrifos e pseudoepígrafos. E faziam isso não por desprezo aos “fatos históricos”, mas com profundo respeito pelo significado teológico original, conforme entendiam. Como o estudioso George Nickelsburg explica, eles queriam “explicar a tradição sagrada de modo que ela falasse aos tempos e questões contemporâneos”.
Não foram apenas os textos não canônicos do Segundo Templo que recontaram histórias bíblicas; a própria Bíblia utiliza alguns desses manuscritos como fontes para suas Escrituras. Os homens que escreveram foram movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1:20-21). A Bíblia não foi ditada diretamente por Deus, nem escrita por Sua “própria mão” (exceto as tábuas do Sinai). A própria Escritura revela autores humanos que compilaram, editaram e usaram outras fontes sob a providência divina.
Há mais de cinquenta referências nas Escrituras a cerca de vinte textos não canônicos, que foram perdidos na história. Alguns exemplos são: O Livro das Guerras de Yahweh (Nm 21:14), Os Atos de Salomão (1Rs 11:41), Os Atos do Profeta Natã (2Cr 9:29), Os Atos dos Videntes (2Cr 33:19), entre outros. No Novo Testamento, essa tradição de usar fontes não canônicas continua. Em 2Tm 3:8, Paulo menciona “Janes e Jambres” como os que resistiram a Moisés, referência aos magos do faraó em Êxodo 7–9. Mas esses nomes não aparecem em nenhum lugar do Antigo Testamento. Então, como Paulo os conhecia? Os pais da Igreja, Orígenes e Ambrósio, afirmavam que Paulo os tirou de um texto pseudepigráfico judaico chamado Janes e Jambres, que narra o episódio do Êxodo pela perspectiva desses magos, um arrependido e outro não. Há também uma longa tradição judaica que preserva esses nomes no Targum de Jônatas.
O livro de Judas no Novo Testamento fala de Miguel, o arcanjo, disputando com o diabo pelo corpo de Moisés (Jd 9), episódio que não aparece em nenhum outro lugar da Bíblia, mas que, segundo os pais da Igreja, estaria num antigo livro judeu perdido chamado A Assunção de Moisés. O estudioso Peter Enns aponta outro exemplo: Paulo assume uma tradição não bíblica ao escrever sobre a jornada no deserto em 1Co 10:3-5.
“Todos comeram do mesmo alimento espiritual e beberam da mesma bebida espiritual, pois bebiam da rocha espiritual que os seguia, e a rocha era Cristo.” Essa passagem é forte e simbólica, mas há um detalhe importante: essa “rocha móvel” não aparece no Antigo Testamento. O estudioso Peter Enns explica que essa ideia vem de uma tradição extra-bíblica, presente em várias fontes judaicas do período do Novo Testamento até compilações rabínicas medievais, como Pseudo-Filo, Tosefta Sukká e Targum Onkelos, entre outras.
Embora o livro de 1 Enoque não faça parte do cânone ocidental das Escrituras, ele integra o cânone etíope oriental e foi amplamente respeitado por estudiosos e líderes da Igreja primitiva, jamais tendo sido considerado herético pela autoridade eclesiástica. O mais surpreendente é que o Novo Testamento se refere favoravelmente a 1 Enoque, especialmente à sua tradição dos anjos caídos, chamados Vigilantes, que se relacionaram com humanas e foram por isso punidos (1Pe 3:19-20; 2Pe 2:4-10; Judas 6-14).
Judas, por exemplo, cita diretamente o livro de 1 Enoque quando fala sobre falsos mestres corrompendo a igreja. Ele escreve: “Foi também sobre estes que profetizou Enoque, o sétimo depois de Adão, dizendo: ‘Eis que o Senhor vem com milhares de seus santos, para executar juízo sobre todos e convencer todos os ímpios de todas as obras de impiedade que impiamente cometeram...’” (Judas 14-15). Essa citação corresponde praticamente palavra por palavra a um trecho de 1 Enoque 1:9, onde se anuncia a vinda do Senhor com uma miríade de santos para executar julgamento e destruir os ímpios.
Além de citar explicitamente 1 Enoque, os textos de Judas, 1 Pedro e 2 Pedro compartilham a mesma ideia central enoquiana do castigo dos Vigilantes por terem transgredido a separação entre o divino e o humano ao se relacionarem com mulheres humanas. Se alguém duvida dessa interpretação “fantástica” sobre o pecado carnal dos anjos, é importante notar que Pedro e Judas citam uma tradição que associa a violação sexual dos Vigilantes com a de Sodoma, que também tentou relações sexuais com anjos. No entanto, essa associação entre o pecado dos Vigilantes e o de Sodoma, apresentada como exemplo, não é encontrada em nenhum texto do Antigo Testamento. Ela aparece apenas em textos judaicos antigos não canônicos. O fato de o Novo Testamento fazer referências literárias a essas fontes não canônicas não significa que esses textos sejam inspirados como a Palavra de Deus, nem que tudo neles seja verdade. Mostra, contudo, que a Bíblia se utiliza e se beneficia de tradições interpretativas que exploram criativamente os relatos bíblicos. Ao contrário do que alguns pensam, Deus aprecia a imaginação criativa.
Em 1 Pedro 3:18-20, fala-se de Cristo descendo ao Sheol para proclamar sua vitória aos “espíritos em prisão” na época do dilúvio. A história não termina aí. O local de punição e aprisionamento desses anjos caídos, mencionado em 2 Pedro, é o Tártaro, palavra grega que difere dos termos usuais para inferno, como gehenna ou hades. O poeta grego Hesíodo, no século VIII a.C., descreveu o Tártaro como um abismo escuro e desesperador onde os titãs foram aprisionados.
Pedro, ao usar o termo Tártaro, não está endossando o politeísmo greco-romano, mas alude a um mito helenista muito conhecido por seus leitores, subvertendo-o com uma interpretação judaica tradicional. Lendas judaicas do Segundo Templo relacionavam essa prisão dos deuses e titãs com os anjos caídos e os gigantes punidos em Gênesis 6.
Muitos crentes temem que a Bíblia tenha adaptado imagens mitopoéticas e, por isso, tentam ignorar esse fato literalizando tudo segundo uma visão moderna e limitada. Citam textos do Novo Testamento, como os mandamentos de Paulo para “rejeitar fábulas profanas e velhas caducas” (1Tm 4:7), evitar “fábulas e genealogias intermináveis que promovem especulações” (1Tm 1:4) e rejeitar “fábulas judaicas e mandamentos de homens que se desviam da verdade” (Tt 1:14), ou que será sinal dos últimos tempos “desviar os ouvidos da verdade, voltando às fábulas” (2Tm 4:4).
Porém, um olhar mais atento ao contexto revela que Paulo não está condenando o gênero literário da mitologia e fantasia em si, mas sim a doutrina falsa que era ensinada por meio de mitos judaicos específicos que negavam o Evangelho. Ou seja, o que Paulo critica é o conteúdo, a heresia que esses mitos continham, não o gênero mitológico de contar histórias. Tudo isso nos mostra que a relação entre imaginação, tradição oral e escrita, e narrativa teológica é muito mais complexa e rica do que muitos querem admitir. Recontar histórias bíblicas com fantasia não significa adulterar a Palavra de Deus, mas pode ser uma maneira de trazer vida, significado e atualidade a textos que já usavam mitos e imagens culturais para comunicar verdades profundas.
O Novo Testamento não proíbe o uso de histórias mitológicas, mas sim seu uso incorreto para ensinar doutrinas falsas. Colocando de forma positiva, devemos nos dedicar a mitos que “promovem a administração de Deus que é pela fé” (1Tm 1:4), mitos que “levam à verdade” (Tt 1:14), mitos “reverentes, sóbrios” de “fé, boa doutrina” e “piedade” (1Tm 4:6-7), mitos que “conduzem à verdade” (2Tm 4:4). A Bíblia redime a imaginação pagã ao usar seus motivos e batizá-los com definições alteradas e subversivas que exaltam Yahweh, o Deus das Escrituras Judaicas, em oposição a Baal, o deus de Canaã, e a outros deuses pagãos do antigo Oriente Próximo.
Baal, o deus da tempestade, era a divindade principal da terra de Canaã na época da conquista israelita. Os mitos cananeus descrevem Baal como um “cavaleiro das nuvens” que derrota o Rio e o Mar, bem como o dragão marinho de sete cabeças chamado Leviatã, símbolo do caos. Em resposta polêmica a esse mito, os escritores bíblicos descrevem Yahweh como o verdadeiro “cavaleiro das nuvens” (Is 19:1; Sl 104:3-4), que derrota o Rio e o Mar (Hc 3:8), assim como o dragão marinho “Leviatã” (Is 27:1; Sl 74:14) ou “Raabe” (Sl 89:9-11), para estabelecer seu domínio eterno (Sl 89:19-29). Parece que Yahweh, junto com os autores humanos da Bíblia, está usando subversivamente os motivos culturais pagãos para dizer: “Baal não é Deus, Yahweh é Deus.” Isso é história misturada com imaginação mitopoética para expressar o significado teológico do que está acontecendo, exatamente como outras religiões do antigo Oriente Próximo faziam.
A imaginação bíblica não pratica sincretismo (mistura de visões opostas), mas sim subversão, que é infiltrar e derrubar uma visão oposta. As semelhanças revelam uma conexão cultural clara, que é redimida e redefinida subversivamente na concepção bíblica. Deus incorpora a imaginação e os motivos pagãos em sua própria narrativa e os subverte por meio de redefinições e uso poético.
Falaremos sobre alguns temas da Bíblia que são envoltos em dúvidas e mistérios.
Éden
Para quem acredita que o Éden foi um local histórico, há tantas sugestões para sua localização quanto comentaristas da Bíblia. Simplesmente não sabemos ao certo. As pistas mais fortes estão em uma única passagem, Gênesis 2:10-14, que fala do Éden como a nascente de quatro rios: o Pisom (na terra de Havilá), o Giom (na terra de Cuxe), o Tigre e o Eufrates. Conhecemos bem o Tigre e o Eufrates, mas o Pisom e o Giom permanecem desconhecidos. Se o dilúvio foi um evento histórico, a geografia afetada por esse cataclismo certamente teria mudado drasticamente, inviabilizando qualquer especulação definitiva. Ainda assim, é divertido tentar descobrir.
O arqueólogo David Rohl leva a Bíblia como confiável. Com base em evidências geográficas, linguísticas e arqueológicas do antigo e moderno Oriente Próximo, ele apresenta um argumento convincente de que a terra do Éden estaria localizada no vale montanhoso hoje conhecido como Armênia, onde se encontram partes da atual Turquia, Irã, Síria e Iraque. Muitos leitores confundem o Jardim do Éden com o próprio Éden, mas Gênesis fala que “o Senhor Deus plantou um jardim no Éden, ao oriente” (Gn 2:8). Ou seja, o Jardim estava na parte oriental de uma terra chamada Éden.
Azazel
Sobre Azazel, encontramos em Levítico 16:7-10 a descrição de um ritual em que Arão lança sortes sobre dois bodes: uma para o Senhor, e outra para Azazel. O bode sorteado para o Senhor é oferecido como oferta pelo pecado, enquanto o outro é enviado ao deserto para Azazel. A opinião acadêmica é variada sobre o que exatamente Azazel representa, mas considerando a tradição enoquiana do anjo Azazel aprisionado no deserto, há um argumento forte de que se trata de um “demônio do deserto” coincidentemente (ou não) com o nome do anjo caído aprisionado no deserto em 1 Enoque.
Outro deus pagão demonizado que pode lançar luz sobre esse “demônio-bode do deserto” é a palavra hebraica seirim, traduzida em diversas passagens como “sátiro” ou “demônio peludo em forma de bode”. Em algumas passagens, refere-se a ídolos caprinos a quem os cananeus ofereciam sacrifícios (Lv 17:7; 2Cr 11:15), e em outras, a entidades demoníacas que habitam o deserto (Is 13:21; 34:14). Para os hebreus, essas deidades pagãs eram vistas como demônios.
Banias, no antigo norte de Canaã/Israel, próximo a Cesareia de Filipe, tornou-se centro de adoração ao deus Pã — um híbrido homem-bode. Esse templo ficava perto da base do monte Hermom. Para o judeu veterotestamentário, Azazel era uma espécie de análogo ou encarnação desse “demônio-bode do deserto”.
Lilith
Outro tema importante é Lilith, a “demônia da noite”, uma divindade mesopotâmica subvertida na narrativa do Antigo Testamento. O Dicionário de Deuses e Demônios na Bíblia relata que sua narrativa mesopotâmica remonta ao terceiro milênio a.C., onde seres como Lilitu e Lili são descritos como demônios femininos, sem marido, que vagam à procura de homens para seduzi-los. Lilith também era conhecida como o demônio que roubava recém-nascidos para sugar seu sangue, comer sua medula óssea e devorar sua carne. Em lendas judaicas, ela é descrita como uma figura de longos cabelos e asas, considerada a primeira esposa de Adão, banida por se recusar a se submeter a ele.
Lilith aparece na Bíblia em Isaías 34, junto com outra criatura mítica pagã, o sátiro, uma reinterpretação demoníaca do deus-bode Pã. O juízo profético sobre Edom descrito nesse capítulo transforma o local em um deserto habitado por todo tipo de demônios: corvos, chacais, hienas, sátiros e Lilith. Isaías 34:13-15 (RSV) diz que “Será morada de chacais... As feras selvagens se encontrarão com hienas, e o sátiro gritará para o seu companheiro; sim, ali repousará a demônia da noite, e achará para si lugar de descanso.”
Resheph e Qeteb
São dois “deuses demonizados” que aparecem na Bíblia em contextos de juízo e punição. No cântico de Moisés, Yahweh descreve como castigará os israelitas que entrarem na Terra Prometida sem obedecerem a Ele:
Deuteronômio 32:23-24 diz: “Multiplicarei desgraças sobre eles, esgotarei contra eles as minhas flechas. Serão consumidos de fome, devorados por pestilência (Resheph) e peste ardente (Qeteb)...”
Resheph e Qeteb eram deuses cananeus ligados à peste e à destruição. Resheph, na Fenícia, era conhecido como aquele que disparava flechas de julgamento flamejante, uma imagem que aparece refletida poeticamente na maldição de Yahweh sobre os rebeldes israelitas. Essa passagem expressa de forma poética como Yahweh entrega os desobedientes a esses deuses cananeus para punição.
Como destaca o Dicionário de Deuses e Demônios na Bíblia, “Qeteb é mais do que uma figura literária — vive como uma realidade espiritual, altamente perigosa, na mente de poetas e leitores”, e “No Antigo Testamento, Resheph é uma versão demonizada de um antigo deus cananeu, agora submetido a Yahweh.”
Rahab
Rahab aparece como uma criatura monstruosa esmagada por Deus, enquanto seus ajudantes — os inimigos divinos — são curvados e dispersos. Em Jó 9:13 está escrito: “Deus não desvia a sua ira; os ajudantes de Rahab se curvam debaixo dele.” No Salmo 89:10, lemos: “Esmagaste Rahab como a um cadáver; com teu braço poderoso dispersaste os teus inimigos.”
Assim, a narrativa bíblica utiliza imagens poderosas de batalhas cósmicas e figuras demonizadas para expressar o domínio absoluto de Yahweh sobre forças do caos, destruindo antigos deuses pagãos e monstros que simbolizam a desordem.
Behemoth
Uma das criaturas mais impressionantes e enigmáticas das Escrituras. A única vez que essa besta gigantesca aparece na Bíblia é no discurso de Deus a Jó, onde Ele destaca seu poder incomparável na criação:
Jó 40:15-24 diz: “Eis o Behemoth, que fiz contigo; come erva como o boi. Vede sua força em seus lombos, e seu poder nos músculos do ventre. Sua cauda é rígida como o cedro, seus tendões são entrelaçados. Seus ossos são tubos de bronze, seus membros como barras de ferro. Ele é a primeira das obras de Deus; aquele que o fez o enfrentará com sua espada. Os montes lhe oferecem pasto, e todos os animais do campo brincam por perto. Ele se deita debaixo dos lotos, escondido nos juncos do pântano. Os lotos o cobrem com sua sombra, os salgueiros do ribeiro o rodeiam. Mesmo que o rio se enfureça, ele não se intimida; permanece tranquilo, mesmo que o Jordão jorre contra sua boca. Poderia alguém pegá-lo pelos olhos? Ou furar-lhe o nariz com armadilha?”
As interpretações tradicionais dos estudiosos bíblicos mais comuns sugerem que Behemoth seria um animal conhecido: um hipopótamo, um crocodilo ou um búfalo. Entre criacionistas da Terra Jovem, há a crença de que ele seria um dinossauro saurópode. Todas essas tentativas buscam explicar Behemoth como um animal real que teria existido nos tempos bíblicos. No entanto, o erudito John Day rejeita essas interpretações naturalistas e propõe que Behemoth é, na verdade, um monstro mitológico do caos, representando a demonização judaica de antigos deuses pagãos e simbolizando a subjugação da criação por Deus. Ele explica que não há evidência de que dinossauros tenham convivido com humanos, que hipopótamos e búfalos não possuem ossos ou músculos que possam ser descritos como “barras de ferro”, e que crocodilos são carnívoros e não comem erva, como o texto bíblico diz. Além disso, o mais importante, todos esses animais podem ser caçados por humanos, ao passo que Behemoth é apresentado como indomável ,só Deus pode enfrentá-lo. Nenhum deles é chamado de “a primeira das obras de Deus”, como Behemoth é no versículo 19.
No livro 1 Enoque, capítulo 60, versículos 7-8 e 24, lemos que “naquele dia, dois monstros serão separados — um monstro, uma fêmea chamada Leviatã, para habitar o abismo do oceano; e o outro, um macho chamado Behemoth, que ocupa o deserto invisível chamado Dundayin, a leste do Jardim do Éden... Estes dois monstros foram preparados para o grande dia do Senhor, quando serão transformados em alimento.”
Deus utiliza esses símbolos do poder criativo sobre o Caos para silenciar as reclamações de Jó. Leviatã e Behemoth são chamados de “as primeiras obras de Deus” e “rei sobre todos os filhos do orgulho”, pois representam forças caóticas primordiais que, embora poderosas, estão sob o domínio divino. E mais: Deus os criará, subjugará e os transformará em banquete no fim dos tempos. O estudioso Kenneth Whitney reforça que havia uma tradição rabínica consolidada durante o Segundo Templo que via Leviatã e Behemoth como companheiros do caos, ressaltando a natureza bovina da criatura anfíbia mencionada nos Crônicas dos Nefilim. Por fim, Day conclui que a razão para a inclusão dessas seções sobre Behemoth e Leviatã em Jó 40–41 é reforçar a ideia de que, se Jó não consegue vencer essas poderosas criaturas, muito menos poderá contestar o Deus que as derrotou.
Robert Koldeway, um arqueólogo amador do século XIX, escreveu um livro sobre o Portão de Ishtar e observou que essa criatura, chamada de sirrush na época, era um dos poucos animais retratados com notável consistência na arte babilônica ao longo do tempo. Ele sugeriu que isso poderia se dever ao fato de os babilônios terem tido espécimes reais dessa criatura. Koldeway acreditava que se tratavam de dinossauros mal interpretados como dragões. Autores da teoria dos astronautas antigos, como Joseph Farrell, vão além e sugerem que esses seres seriam exemplos de manipulação genética realizada por extraterrestres.
O estudioso Theodore Lewis explica que, na combinação genética do mushussu, entre leão e dragão, “o denominador comum para associar essas duas criaturas parece ser que ambas poderiam inspirar um medo paralisante e sufocante quando encontradas.” Ele conclui que essa criatura era usada como metáfora para o Faraó que oprimira Judá, em vez do “crocodilo” das antigas interpretações. Yahweh então capturaria e lançaria essa besta de governante ao chão, para que as nações se banqueteariam de sua carne.
Essa justaposição literária entre leão e serpente também ocorre no Salmo 91:13, Isaías 30:6 e Amós 5:19, e pode ter se originado da consciência cultural sobre essa criatura mitopoética: o mushussu.
Eles eram quimeras, criaturas híbridas com corpo de leão ou touro, cabeça humana e asas de águia, que protegiam os tronos da realeza e da divindade em toda a região. Não surpreende, então, que também fossem as criaturas que guardavam o trono de Yahweh, um trono que alguns estudiosos explicam como um motivo comum mesopotâmico do “carro trono divino”.
Salmo 99:1:
“O Senhor reina; tremam os povos!
Ele está entronizado sobre os querubins!”
Quando Ezequiel tem sua visão dos querubins nos capítulos 1 e 10, descritos como “criaturas viventes”, sua forma habitual tipo esfinge é expandida para uma multiplicidade de quatro asas e quatro faces: humana, de leão, águia e boi. Mas sua natureza essencial permanece a mesma. Os querubins que guardavam a Arca da Aliança, com suas asas estendidas, foram esculpidos por artesãos fenícios pagãos para Salomão (1 Reis 8:6–7). Um artefato de marfim descoberto em Megido, Israel, mostra um rei israelita — possivelmente Salomão, sentado em seu trono, guardado por querubins em forma de esfinge, com corpo de leão, asas de águia e cabeça humana.
Em contraste com essa arte imaginativa, os querubins vivos que guardavam o Caminho para a Árvore da Vida no Jardim do Éden não eram estátuas imóveis (Gênesis 3:24), mas eram os mesmos querubins do tipo esfinge. Gênesis 3:24 diz que esses querubins guardavam a Árvore da Vida com a “chama da espada flamejante que se movia em todas as direções.” O estudioso Ronald Hendel argumenta que “a ‘chama’ é um ser divino animado, um membro da hoste divina de Yahweh, semelhante em status aos querubins; a ‘espada flamejante’ é sua arma apropriada, sempre em movimento, como a própria chama.”
O estudioso P.D. Miller, com base em passagens como Salmo 104:4, onde “fogo e chama” são descritos como “ministros de Yahweh”, conclui que há uma convergência de imagens com textos ugaríticos antigos que descrevem “fogo e chama” como deuses armados com espadas flamejantes. Ele escreve que “os querubins e a espada flamejante provavelmente devem ser reconhecidos como um reflexo dos mensageiros flamejantes cananeus.”
O arqueólogo David Rohl argumenta que os querubins podem ter sido uma espiritualização mitológica de uma tribo humana de sentinelas chamada Kheruba, que guardava o paraíso edênico.
Isaías 6:2–7 diz:
“Acima dele estavam os serafins; cada um tinha seis asas: com duas cobriam o rosto, com duas cobriam os pés e com duas voavam. E um clamava ao outro, dizendo:
‘Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória!’
[…] Então um dos serafins voou até mim, trazendo na mão uma brasa viva.”
A palavra hebraica serafim significa “serpente ardente”. O termo foi usado para descrever as serpentes flamejantes no deserto, cujo veneno ardente foi o castigo de Deus contra o povo de Israel por suas murmurações (Números 21:6). O bálsamo de cura e perdão foi obtido ao olhar para uma serpente de bronze (seraf) erguida em uma haste, chamada Nehushtã (Números 21:8).
Mas esse não é o único uso de seraf que ilumina o significado dos serafins angelicais. O léxico hebraico Brown-Driver-Briggs destaca que Isaías 14:29 e 30:6 referem-se a uma “serpente ardente voadora” (seraf) no deserto, originada de deidades serpentes aladas mitologicamente concebidas. O termo é inevitavelmente serpentino em todos os seus cognatos. Alguns negam essa essência serpentina, apontando que os serafins de Isaías são descritos com rostos humanos, asas, mãos e pés. Mas Karen Randolph Joines argumentou de forma convincente que o ureu egípcio alado, a cobra ereta que guardava túmulos e tronos dos faraós com seu veneno “ardente”, é demonstravelmente equivalente ao seraf hebraico. Assim como os serafins de Isaías, o ureu também era frequentemente descrito com rosto humano, asas, mãos e pés, quando necessário para realizar suas tarefas. Mas permanecia essencialmente uma serpente alada.
O estudioso do Antigo Oriente Próximo Michael S. Heiser vai ainda mais longe e propõe uma sobreposição literária de todos esses elementos, serpentes flamejantes, voo, feições humanoides e divindade, como variações de descrições do que chama de “paradigma dos Vigilantes”:
“Os serafins, então, são seres reptilianos/serpentinos, eles são os Vigilantes (os ‘vigilantes’ que diligentemente guardam o trono de Deus, o qual é carregado [cf. Ezequiel 1 e 10] pelos querubins, que também servem como guardiões). Existem seres serpentinamente bons (os serafins) que guardam o trono de Deus (como os de Isaías 6), e existem seres serpentinos caídos e malignos (também chamados serafins) que rebelaram-se contra o Altíssimo em vários momentos, tornando-se os deuses pagãos das nações.” Ele apoia essa visão com base em Isaías 14:29, uma profecia contra a Filístia (cidade dos gigantes Golias e outros), que menciona a guerra messiânica da semente da serpente (nachash), gerando como fruto uma serpente ardente voadora (seraf):
Isaías 14:29
“Não te alegres, ó Filístia...
pois da raiz da serpente (nachash) sairá uma víbora,
e seu fruto será uma serpente ardente voadora (seraf).”
Um fragmento dos Manuscritos do Mar Morto confirma o entendimento judaico antigo de que os Vigilantes tinham essa presença reptiliana e dominavam povos específicos:
4QAmrão (4Q544), linhas 10–14
“[Vi Vigilantes] em minha visão, a visão em sonho. Dois homens estavam brigando por mim... Perguntei-lhes: ‘Quem sois vós, que tendes tanto poder sobre mim?’ Responderam-me: ‘Fomos empoderados e reinamos sobre a humanidade.’ Disseram-me: ‘Qual de nós escolhes para te governar?’ Levantei os olhos e olhei. Um deles era terrível em aparência, como uma serpente, seu manto multicolorido, mas muito escuro... E olhei de novo, e... sua aparência era como a de uma víbora.”
A Bíblia reforça essa visão ugarítica antiga dos Rephaim como ancestrais reais ou heróicos mortos que residem no submundo, mas com uma reviravolta. Em Isaías 14, o profeta pronuncia um oráculo de julgamento contra o rei da Babilônia, cuja arrogância o leva a se considerar um deus (vv. 13–14). Isaías conclui com uma zombaria irônica aos Rephaim — esses reis e heróis mortos exaltados, incluindo o rei babilônico, em sua impotência final:
Isaías 14:9–11
“O Sheol, abaixo, se agita
para te receber quando chegas;
ele desperta os espectros (Rephaim) para te saudar,
todos os que foram líderes da terra;
levanta de seus tronos
todos os reis das nações.
Todos eles responderão e te dirão:
‘Tu também te tornaste fraco como nós!
Te tornaste igual a nós!’
Tua pompa foi lançada ao Sheol.”
Para o profeta hebreu, esses reis orgulhosos foram humilhados no submundo de Sheol. Sua glória se tornou apenas “sombras” diante da luz de Deus. Parece que o profeta transforma a mitologia cananeia antiga numa emasculação polêmica do orgulho pagão.
Mas há outro elemento que o texto bíblico acrescenta a esses Rephaim reais “divinizados”: o gigantismo. A terra de Canaã ao redor do Monte Hermom, chamada Bashan, foi descrita como a “terra dos Rephaim” (Dt 3:13), cujos habitantes eram altos gigantes, como os Anaquins (Dt 2:11, 20), e ligados a Golias, o gigante (1Cr 20:4–8). Quando Josué exterminava as tribos e cidades de gigantes em Canaã, um dos últimos a ser vencido foi Og de Bashan, o “último dos Rephaim” (Js 12:4), cuja cama (ou sarcófago) tinha cerca de quatro metros de comprimento (Dt 3:11).
O satan
A mitologia evangélica típica em torno de Satanás repete, quase como um dogma, que ele era o mais elevado dos querubins na hoste celestial, um líder de adoração chamado Lúcifer, que teria se rebelado contra Deus antes mesmo do Éden, tentando usurpar Seu trono. Teria sido expulso do céu junto com um terço dos anjos e, já aqui na Terra, teria se disfarçado como serpente para enganar Eva. Desde então, se tornaria o “príncipe do ar”, o dominador do mundo. O problema é que nada disso está de fato na Bíblia. Essa narrativa, ainda que popular, é uma construção que mistura trechos mal interpretados com tradições posteriores, e não resiste a uma leitura mais cuidadosa das Escrituras.
Seguindo a linha de raciocínio de estudiosos como David Lowe, proponho aqui uma desconstrução da figura de Lúcifer para redescobrirmos quem é, de fato, o Satanás bíblico. E, para deixar claro desde o início, o Novo Testamento realmente associa Satanás à serpente do Jardim (2Co 11:3; Ap 12:9; 20:2), e isso não é um ponto de conflito. A questão é: o restante da mitologia luciferiana se sustenta quando confrontado com o texto bíblico?
Os dois textos usados com mais frequência para sustentar essa ideia são Isaías 14:12–15 e Ezequiel 28:12–16. Comecemos com Isaías:
“Como caíste do céu, ó Estrela da Manhã (Lúcifer), filho da Alva! Foste lançado por terra, tu que prostravas as nações!”
Essa passagem, lida em seu contexto, é uma profecia contra o rei da Babilônia, contemporâneo de Isaías. O que se vê ali não é uma descrição literal da queda de um ser angélico, mas uma zombaria profética usando linguagem mitopoética. A expressão “Estrela da Manhã” é uma tradução do hebraico Helel ben Shachar, o planeta Vênus, que aparece brilhante antes de cair no horizonte. No imaginário do Oriente Próximo, planetas eram associados a deuses, e nesse caso, Isaías evoca Athtar, o deus cananeu que, na mitologia de Ugarit, tentou tomar o trono de Baal e foi rejeitado. Isaías usa essa narrativa para ironizar o rei babilônico que se achava glorioso, mas seria lançado ao chão em humilhação. Como observa Norman Habel, o uso dessas imagens não indica aprovação da mitologia pagã, mas uma estratégia poética e polêmica para confrontar os reis que se achavam deuses.
O segundo texto, em Ezequiel 28:12–16, é outro oráculo — desta vez contra o rei de Tiro. E aqui a coisa fica ainda mais interessante. O texto diz:
“Estavas no Éden, jardim de Deus… eras querubim ungido… foste criado íntegro… até que se achou iniquidade em ti…”
Muitos assumem que isso fala da queda de Satanás, mas o nome “Satanás” sequer aparece. A passagem, na verdade, faz alusão a Adão. Foi Adão quem esteve no Éden, quem foi criado íntegro e depois caiu. Mais ainda: enquanto o texto massorético diz que o personagem “era querubim”, a Septuaginta, usada por Jesus e os apóstolos, traduz que ele estava com o querubim, e que foi o querubim quem o expulsou — o que se alinha perfeitamente com Gênesis 3. O texto bíblico não apresenta Adão como um ser angelical, mas como alguém colocado em meio aos querubins, e depois expulso por causa de sua transgressão. Tudo isso desmonta a ideia de que essa passagem seja sobre Satanás.
E quanto ao famoso “um terço dos anjos” que teria caído com ele? Essa ideia vem de Apocalipse 12, mas ali o contexto é claro: a guerra no céu acontece na época do nascimento de Jesus, quando o Messias é arrebatado até Deus e, então, Satanás é expulso do céu. Não se trata de um evento pré-Adâmico, mas sim da derrota do acusador com a chegada do Reino de Cristo. A vitória messiânica é o marco da queda de Satanás, e não uma suposta rebelião nos tempos primordiais.
Outro ponto crucial: o termo “satan” na Bíblia hebraica não é um nome próprio, mas uma função. A palavra significa literalmente “acusador” ou “adversário”, e sempre aparece com o artigo definido ha — ou seja, ha-satan, “o acusador”. No Novo Testamento, a palavra grega Satanás também costuma vir com o artigo definido, ho satanas, “o adversário”. Portanto, a figura que aparece nos textos bíblicos é um tipo de procurador, um ser (ou demônio) com a tarefa de levantar acusações legais. Ele não é uma entidade caída nas origens do mundo, mas sim um papel funcional dentro da ordem divina.
Essa função aparece claramente em Jó 1 e 2, onde o satan acusa Jó diante de Deus, questionando sua fidelidade. Em Zacarias 3, vemos o mesmo padrão: Josué, o sumo sacerdote, é acusado pelo satan diante de Deus. Em ambos os casos, ele opera como um fiscal ou promotor legal, parte de uma estrutura jurídica celestial.
Aliás, a própria Bíblia mostra que “satanás” pode se referir a diferentes personagens, inclusive humanos e até mesmo ao próprio Deus, dependendo do contexto:
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Em Números 22, o anjo do Senhor que barra o caminho de Balaão é chamado de satan, um opositor.
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Em 1 Samuel e 1 Reis, inimigos políticos de Davi e de Israel são chamados de satanim, ou seja, adversários.
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Em 1 Crônicas 21, Deus é quem incita Davi a fazer o censo, e a narrativa atribui isso ao satan — paralela à versão de 2 Samuel 24, onde Deus é quem age diretamente.
O satan, então, não é sempre o mesmo personagem. É um papel dentro de uma estrutura judicial que aparece em diversos contextos do Antigo Testamento. Às vezes ele é um operador do juízo, outras vezes é uma entidade que desafia ou acusa, mas sempre dentro do cenário de um tribunal cósmico, onde Deus está assentado como juiz supremo.
Essa estrutura jurídica aparece em vários textos bíblicos. No Salmo 82, Deus julga os outros membros do conselho divino ,os “deuses”, por não cumprirem seu dever. Em Daniel 7, o Ancião de Dias se assenta e o tribunal começa, diante de miríades de seres espirituais. E nos livros dos profetas, como Isaías, Jeremias e Miquéias, o vemos atuando como advogado acusador, denunciando Israel, num processo judicial que segue fórmulas bem conhecidas da antiguidade, herdadas das alianças e tratados hititas, por exemplo.
E o que tudo isso nos mostra? Que o papel do satan, no contexto bíblico original, não é o de um inimigo cósmico rival de Deus, mas sim uma figura subordinada, um acusador, que tem um propósito: expor, testar e denunciar. Com o passar dos séculos, essa figura foi sendo transformada, associada a dragões, demônios, a uma rebelião pré-histórica e até a deuses pagãos derrotados. Mas a leitura bíblica, especialmente a do Antigo Testamento, nos oferece um quadro muito mais sóbrio, e teológico daquilo que hoje muitos confundem com fantasia ou terror.
**Este texto é um resumo feito por Paulo Barbosa com base na obra "When Giants Were Upon The Earth" de Brian Godawa. O conteúdo aqui apresentado visa fins educacionais e de discussão, conforme previsto no art. 46 da Lei 9.610/98.

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