When Giants Were Upon the Earth - Capítulo 7 - Gilgamesh, Babel e a Bíblia

 


When Giants Were Upon the Earth - Capítulo 7 Gilgamesh, Babel e a Bíblia 


Uma figura supostamente histórica: Gilgamesh, rei de Uruk, listado como o quarto monarca da primeira dinastia da cidade. Seu nome aparece numa antiga Lista de Reis Sumérios, marcado como aquele que reinou após "o dilúvio ter varrido" a terra. Os estudiosos o posicionam no terceiro milênio antes de Cristo, mas mesmo isso é incerto. De fato, sabemos pouquíssimo sobre ele fora da famosa epopeia, descoberta apenas em 1849 por Austen Henry Layard na biblioteca de Assurbanípal, durante escavações em Nínive, no atual Iraque. Desde então, fragmentos mais antigos surgiram em várias regiões do Oriente Médio, revelando que a história de Gilgamesh foi montada aos poucos, a partir de episódios soltos da tradição suméria. Jeffrey Tigay documentou essa montagem editorial em The Evolution of the Gilgamesh Epic, enquanto Tzvi Abusch mostrou que ao menos três versões principais do épico podem ser rastreadas, cada uma incorporando diferentes preocupações sociais, políticas e religiosas da identidade nacional da Babilônia uma identidade em constante transformação, desde os tempos dos reis heroicos e individualistas até a vida mais “civilizada” da cidade sob o governo estatal.

Nesse contexto, o período logo após o Dilúvio e antes da Torre de Babel parece retratar um tempo em que Deus se oculta da humanidade, “entregando” os povos pagãos a seus desejos e pensamentos vazios, como diz Paulo em Romanos 1: para que adorassem a criatura no lugar do Criador. E que maneira mais eficaz de retratar essa ausência divina do que contar uma história pagã que a incorpora de forma tão vívida? A Epopeia de Gilgamesh funciona como um manifesto da cosmovisão babilônica, e isso não é qualquer coisa: trata-se da visão de mundo do inimigo final da linhagem escolhida por Deus.

Gilgamesh é apresentado como dois terços deus e um terço homem, mas é justamente essa parte humana que o condena à mortalidade. O medo da morte e da ausência de sentido o leva a buscar imortalidade e significado. Ele começa como um rei divinizado e tirano, entregue à devassidão do poder, até que encontra seu igual: Enkidu, o "nascido da selva", um homem indomado, criado para ser o contraponto à arrogância feroz de Gilgamesh. O encontro entre os dois marca o início de uma amizade e de uma jornada heroica: enfrentam o monstro Humbaba, guardião da floresta dos deuses, e o Touro dos Céus, enviado pela deusa Ishtar. Mas o orgulho de Gilgamesh cresce até que os deuses castigam Enkidu com uma doença fatal. Sua morte obriga Gilgamesh a encarar que, por mais grandioso que seja, também morrerá como qualquer outro homem.

A busca então muda de foco: Gilgamesh parte em direção ao distante Utnapishtim — o Noé babilônico, o único ser humano que sobreviveu ao dilúvio e foi agraciado com a imortalidade. Ele deseja arrancar dele o segredo da vida eterna. Mas descobre que a morte é intrínseca à condição humana e que o privilégio de Utnapishtim jamais será repetido. Retorna então à sua cidade, Uruk, e reconhece que a verdadeira imortalidade está naquilo que se constrói para além de si mesmo: as muralhas, a cidade, a civilização.

A semelhança com Eclesiastes é tão gritante que chega a ser desconcertante. Os versos finais da Tábua XI da epopeia caminham lado a lado com Eclesiastes 9:7–10, mostrando que houve troca de ideias. Mas as diferenças são tão profundas quanto as semelhanças: o politeísmo de Gilgamesh dá lugar ao monoteísmo transcendental de Eclesiastes, onde a eternidade se encontra não na glória da cidade, mas na comunhão com Deus, o único realmente eterno.

A figura de Enkidu também carrega simbolismos fortes. Ele é o selvagem peludo e nu, que vive entre os animais. Ele foi, de fato, criado pela deusa Aruru como um contraponto à opressão “civilizada” e à “arrogância feroz” do rei Gilgamesh sobre a cidade de Uruk. Trata-se do eterno conflito entre a identidade humana rural e urbana. O habitante da cidade pode ser “civilizado”, mas pode ser bárbaro e cruel comparado ao “bom selvagem”, que é a única redenção para essa opressão. Na versão padrão da epopeia babilônica, um caçador tenta impedir Enkidu de destruir suas armadilhas seduzindo-o com uma prostituta chamada Shamhat. Enkidu é atraído por ela com desejo instintivo e, por fim, é domado pela satisfação sexual com a mulher, que então o civiliza com roupas e etiqueta humana. É o paradigma clássico antigo da natureza humana: a sensualidade da mulher domestica a selvageria do homem. Mas essa civilização da natureza humana também é retratada como uma perda de inocência necessária para a maturidade. De repente, os olhos de Enkidu se abrem, “ele tinha razão, ele tinha entendimento”. Seu vínculo psíquico com os animais é rompido, e Shamhat diz a Enkidu: “Você é como um deus.”Esse pequeno episódio e seu simbolismo mítico de crescimento humano e separação dos animais por meio da perda da inocência têm paralelos óbvios com o Jardim do Éden em Gênesis 3. Eva, seduzida pela serpente, influencia Adão a comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, o que “abre os olhos” deles, e eles “se tornam como Deus”, perdendo a inocência.

Charlesworth, analisando artefatos da Idade do Bronze, descreve Canaã como uma “civilização de culto à serpente”, o que ecoa o simbolismo da serpente do Éden. E é justamente Canaã a terra prometida por Deus a Israel, terra que deveria ser purificada dos clãs de gigantes, descendentes dos nefilins (Números 13:32–33). Já comentei antes que o relato da criação em Gênesis segue um padrão antigo do Oriente Próximo: justificar o domínio territorial através de uma narrativa de criação. O Enuma Elish faz isso com Marduque, e Gênesis o faz com Yahweh, como legítimo herdeiro da Terra Prometida.

As tábuas de argila provam que a epopeia de Gilgamesh passou por diversas fases editoriais. Uma das mudanças mais significativas foi a adição do relato do Dilúvio, ausente na versão mais antiga. Jeffrey Tigay mostrou que esse episódio foi provavelmente incorporado a partir de Atrahasis, outra epopeia acadiana. A versão suméria mais arcaica, chamada simplesmente O Dilúvio, também pode ter contribuído. A crítica bíblica antiga tentou argumentar que o relato do Gênesis seria apenas uma cópia disso, mas essa teoria já foi abandonada. P. J. Wiseman demonstrou que o texto de Gênesis segue uma estrutura interna com fórmulas como “estas são as gerações de”, indicando o uso de registros originais, e não uma colcha de retalhos de tradições sacerdotais.

O valor da religião comparada está justamente nisso: compreender melhor o contexto histórico e cultural em que esses textos foram escritos. O valor da religião comparada está em alcançar uma melhor compreensão do contexto histórico e cultural de escritos antigos como a Bíblia. Com demasiada frequência, tanto crentes religiosos quanto céticos abordam o texto com visões de mundo modernas e preconcebidas, projetando nelas suas agendas políticas ou ideológicas, para “usar” o texto conforme seus próprios interesses, sejam eles positivos ou negativos. Cristãos muitas vezes forçam passagens poéticas a caberem no molde rígido de uma hermenêutica hiper-literalista, ou impõem noções modernas de exatidão histórica ou científica a escritores antigos que simplesmente não escreviam com uma mentalidade pós-iluminista.

Os autores bíblicos eram homens de seu tempo. Eles não estavam escrevendo Gênesis como um tratado científico sobre a origem do universo material, mas sim como documentos teológico-políticos. Quando impomos nossas categorias modernas à Bíblia, praticamos a pior forma de imperialismo cultural, negando o lado humano de um texto divinamente inspirado. Mas o oposto também ocorre: críticos modernos impõem à Bíblia ideias de evolução literária, com o intuito de descreditar suas narrativas, reduzindo-a a um entre vários mitos que evoluem com o tempo. Esse viés moderno ignora o fato de que muitos textos antigos tinham propósitos polêmicos, reinterpretando eventos históricos com significados divergentes ou recontando narrativas através de lentes teológicas contrárias. Isso não é sincretismo por plágio evolutivo, mas sim uma subversão de cosmovisões concorrentes.

A Bíblia também usou com maestria a mudança de nomes como ferramenta teológica e identitária. Abraão, Israel, Paulo, todos passaram por transformações de nome com significados profundos. Mas o mesmo recurso foi usado para seres negativos: Baalzebul (“senhor da morada celestial”) foi transformado em Baalzebub (“senhor das moscas”), e Izebul, que significava “onde está o príncipe Baal?”, virou Jezabel, uma alusão pejorativa ao esterco. Até a cidade da Babilônia teve seu nome deturpado: de “Portal dos Deuses” para Babel, a confusão das línguas. Isso era uma ferramenta de superação de seus adversários.

No fim, a comparação entre a Bíblia e a epopeia de Gilgamesh revela algo muito maior do que simples paralelos ou supostas cópias. Como Heidel concluiu com precisão: “O esqueleto é o mesmo, mas a carne, o sangue e o espírito animador são completamente diferentes.” Em outras palavras, os textos utilizam narrativas comuns e/ou parecidas, não com o objetivo de copiar ou se apropriar, mas de trazer a sua própria interpretação e visão dos personagens e ocorridos.




**Este texto é um resumo feito por Paulo Barbosa com base na obra "When Giants Were  Upon The Earth" de Brian Godawa. O conteúdo aqui apresentado visa fins educacionais e de discussão, conforme previsto no art. 46 da Lei 9.610/98.

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