Gostos amadurecem
Existem grandes embates sobre preconceito quando se trata de gostos artísticos. Adeptos de música funk, por exemplo, constantemente aparecem discutindo contra especialistas musicais que advogam a superioridade da música clássica. O mesmo ocorre em outros meios artísticos, como estilistas que menosprezam uma moda pop, fãs de filmes de massa modernos que se revoltam contra críticos de cinema renomados que professam críticas duras contra as modas do cinema atual, e assim por diante. As pessoas ficam irritadas quando alguém que entende de filmes diz que o novo filme da Marvel Comics é ruim. A reação quase sempre vem rápido, com frases do tipo: “Esses filmes antigos é que são chatos, coisa de velho, eu não consigo nem assistir.”
Primeiramente, não precisamos nos revoltar quando um especialista diz que a música que ouvimos é ruim, que nossa roupa é brega ou que os filmes que gostamos não são bons filmes. Ninguém está dizendo que não podemos assistir ou que não devemos gostar desse tipo de arte mais simples. Na verdade, faz todo sentido gostarmos de uma arte mastigada, adaptada para um “paladar” mais leigo, que ilustra coisas simples do cotidiano para que nossos sentidos tenham atenção e resposta imediata. Esse tipo de arte cumpre um papel, ela conversa com quem ainda está em um estágio inicial de percepção estética.
Uma pessoa que já assistiu muitos filmes carrega uma bagagem grande de referências, filmes bons que servem como comparação. Ela já não se impressiona com facilidade, já se acostumou com grandes cenas, trilhas épicas e momentos de euforia, então essas cenas deixam de encobrir erros graves de direção, arte ou roteiro, como muitas vezes fazem conosco. O especialista possui o que chamamos de “bom ouvido” ou “bom paladar”, como ocorre com quem entende de vinhos, música ou cinema. Ele percebe detalhes que passam despercebidos para a maioria de nós, porque seus sentidos estão mais treinados, mais exigentes, mais calejados.
Isso é um processo natural em qualquer área da vida. É o caminho que vai do leite, que é básico, até o alimento sólido, que é complexo. Nossas percepções amadurecem assim. No começo, coisas simples nos impressionam, mas conforme crescemos e passamos a enxergar de forma mais robusta, precisamos e buscamos ingerir algo mais sólido, mais consistente, mais completo. Não estamos dizendo que o líquido é ruim, apenas que, comparado ao sólido, ele é limitado. A chave não é que nossos gostos são ridículos, embora às vezes sejam, mas que especialistas exigem mais, eles buscam algo além, porque desejam apreciar uma arte superior.
Essa mesma reflexão precisa acontecer quando falamos da fé. Vejo com frequência debates, principalmente online, onde algumas pessoas criticam movimentos modernos das igrejas, afirmando que eles não são cristocêntricos, que exaltam o homem, que geram emoções, mas não arrependimento de pecados. Do outro lado, os adeptos desses movimentos entram na discussão com frases como: “Pelo menos eles estão convertendo pessoas” ou “O que precisamos é de avivamento, não de teologia.” Esses embates são muito comuns e, na maioria das vezes, não acontecem por maldade, mas por uma diferença clara de estágio na fé.
Eu, particularmente, tendo a concordar mais com cristãos de uma fé reformada, mais sóbria, sem chavões, sem manipulação de plateia, focada na Bíblia e menos em manifestações particulares. Vejo esse cristão mais maduro como um especialista que desenvolveu um “bom tato” espiritual, sensível e treinado, capaz de perceber o que realmente sustenta um cristianismo verdadeiro, aquilo que faz a fé progredir e se tornar mais profunda. Ainda assim, não posso ignorar que muitos momentos mais avivados fizeram parte essencial da minha conversão e do meu amor por Cristo. Igrejas avivadas, orações em coro, músicas gospel e orações focadas nos problemas humanos foram importantes no meu processo inicial de conhecer a Deus.
Quantos cristãos, no início da caminhada, não focam suas orações nas próprias necessidades, sonhos, desejos ainda muito ligados ao mundo, ou priorizam experiências emocionais com Deus, como sentir Sua presença por meio da música, orar com palavras casuais, ouvir chavões, símbolos de vitória e linguagem simplificada? Isso acontece porque o novo convertido ainda está na fase do leite materno. Ele está conhecendo um novo mundo, desenvolvendo um novo sentido, o espiritual, aprendendo novas formas de agir e viver, tudo isso ainda carregando uma bagagem secular pesada.
Assim como um bebê precisa aprender a se mover, a imitar, a falar, a manusear objetos que antes não faziam sentido, o novo cristão está aprendendo a viver de uma forma completamente diferente. O alimento líquido pode parecer ridículo para um adulto, mas é absolutamente necessário para quem acabou de nascer. O erro está em tratar esse estágio como algo desprezível, quando na verdade ele é parte natural do crescimento.
Por isso, precisamos aprender a lidar melhor com as fases da vida cristã. Precisamos sim combater heresias populares, corrigir rumos seculares que muitas igrejas têm tomado, mas também precisamos identificar por que essas heresias falam tanto aos jovens e aos novos convertidos. Se elas alcançam essas pessoas, é porque estão tocando em feridas e necessidades que muitas vezes não estamos conseguindo alcançar. Estamos comparando as percepções de um nascituro na fé com as de alguém já maduro, como se fosse normal ridicularizar uma criança por colocar brinquedos na boca, em vez de oferecer um mordedor adequado.
Não deveríamos simplesmente jogar uma teologia robusta no colo do novo convertido como substituição automática dos chavões, assim como não faria sentido exigir que uma criança viva como um adulto. Tudo tem seu tempo. O que precisamos é oferecer caminhos saudáveis, simples, verdadeiros, que supram essas necessidades iniciais sem recorrer a distorções doutrinárias.
O que não pode acontecer é manter o cristão eternamente preso ao alimento líquido. Muitas coisas desse processo inicial não são negativas, assim como músicas simples, vinhos fracos ou filmes fáceis também não são, mas elas precisam evoluir. Em algum momento, precisamos deixar de orar apenas pelos nossos desejos e começar a buscar os desejos de Deus para nossa vida. Precisamos parar de usar a fé apenas para satisfazer emoções e passar a usar nossas emoções para glorificar a Deus. Precisamos deixar de enxergar o louvor apenas como algo pessoal e vê-lo como algo congregacional. Precisamos parar de tratar o pecado como um simples obstáculo e encará-lo como um adversário mortal.
Por fim, como cristãos, não deveríamos enxergar os embates entre fases da fé como uma guerra maniqueísta entre bem e mal, mas como processos naturais de amadurecimento, que precisam ser conduzidos com paciência, discernimento e responsabilidade espiritual.
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