Mas todos esses milagres da Bíblia são reais?


 Mas todos esses milagres da Bíblia são reais? Isso não parece razoável para muita gente.


Primeiramente, se Deus existe, e tudo indica que sim, e se Ele criou o universo, algo que por si só já é maravilhosamente milagroso, muito mais impressionante do que qualquer coisa que já vimos e absolutamente sem repetição, então qualquer outro milagre menor se torna possível. Não há razão lógica para duvidar da multiplicação de pães diante de um Deus que fez o sol, as estrelas, o tempo, a matéria e a própria vida. O erro não está nos milagres narrados, mas na forma como hierarquizamos o que é extraordinário, como se a criação fosse algo trivial e a intervenção divina fosse o verdadeiro problema.

Outro grande equívoco é imaginar que o fato de a Bíblia narrar milagres e acontecimentos impressionantes significa dizer que tais sinais eram diários e comuns naquele tempo. Até hoje vemos coisas incríveis e situações que fogem do padrão acontecendo periodicamente. O fato de esses eventos serem raros hoje não torna a Bíblia algo duvidável, afinal, ela é uma coletânea de relatos que cobrem milhares de anos de história. Os milagres ali reunidos parecem corriqueiros apenas porque estão agrupados em um único volume, mas na realidade são registros de momentos ímpares, ocorridos com a mesma escassez com que ocorrem hoje.

Pare por um minuto e pense nos milagres bíblicos. Davi não fez nenhum milagre. João Batista não operou nenhum. Esdras, Josias, Isaque, nenhum deles realizou sinais extraordinários, e em muitos casos não há sequer relatos de grandes aparições, anjos ou eventos sobrenaturais marcantes em suas jornadas. Isso desmonta a ideia de que a experiência bíblica comum era recheada de fenômenos sobrenaturais constantes. Essa percepção de “milagres comuns” surge porque focamos nos poucos que passaram por essas experiências, os profetas e apóstolos comissionados por Deus, e ignoramos o pano de fundo da história, que é formado por vidas normais, dias comuns e fé vivida no ordinário.

Profetas e apóstolos tinham uma missão específica, anunciar a mensagem do Messias, trazer novos mandamentos ou reforçar os antigos, e por isso precisavam de uma confirmação objetiva de autoridade, uma assinatura divina que deixasse claro que aquela mensagem não era fruto de imaginação, subjetividade ou interesse pessoal. É exatamente para isso que os milagres ocorriam, como sinais que identificavam que Deus estava agindo por meio daqueles homens e como testemunho sólido para todas as gerações seguintes. Agora perceba que milhares de anos antes e depois desses eventos passam como dias normais, assim como ocorre no período intertestamentário, sem grandes milagres registrados.

O que estou afirmando não é que Deus não agiu nesses tempos e nem que não age hoje, pelo contrário, Deus age diariamente. Tudo ao nosso redor é milagre. Uma gestação, um fruto que nasce de uma árvore, uma conversão verdadeira, tudo isso é extraordinário. A diferença é que as narrativas bíblicas de céu se abrindo e de sinais que rompem de forma evidente a ordem natural tinham um propósito específico, demonstrar que aquela mensagem não era particular, emocional ou subjetiva, mas uma comunicação geral vinda daquele que está acima da própria ordem natural.

Timóteo tinha problemas de saúde. Paulo também. Epafrodito quase morreu doente. Em algumas cartas de Paulo, escritas próximas ao período de Cristo, não vemos sequer menções a dons extraordinários, o que evidencia que essa intensidade constante de milagres e grandes curas não era a regra nem mesmo na igreja primitiva. Isso não significa que Paulo não tivesse dons, mas mostra claramente que eles não ocorriam a todo momento, como alguns imaginam que a Bíblia defende.

Outro ponto importante é perceber que ainda hoje ocorrem situações muito semelhantes às narradas nas Escrituras. Muitos acham estranhos textos que falam da ursa que matou os zombadores ou de pessoas como Nadabe, que morreram instantaneamente por decreto divino. Mas basta pesquisar notícias atuais, como o caso amplamente divulgado em 2021, “Suspeito anuncia assalto a fiéis em monte e morre após oração de pastor em Minas Gerais”, noticiado pelo G1. Existem inúmeras notícias semelhantes. Não estou afirmando que todas essas situações podem ou devem ser interpretadas como ações diretas de Deus, mas sim que muitos acontecimentos que hoje tratamos como coincidência ou simplesmente ignoramos ocorreram na Bíblia de forma semelhante. Ainda assim, de maneira incongruente, muitos afirmam que os relatos bíblicos são inventados ou impossíveis.

Resumindo então: Nós frequentemente pedimos uma intensidade de dons e milagres hoje (como prova) que a própria Bíblia não indica terem ocorrido em nenhum momento da história. Deus é tão presente hoje quanto foi naqueles tempos. A diferença não está em Deus, mas na nossa percepção.

Não considere algo falso ou impossível apenas porque lhe parece incrível ou difícil de acreditar. Há poucos anos, a física quântica era algo impensável. Pense na fotografia, você registra um instante do tempo e o envia para alguém do outro lado do mundo. Tudo isso seria completamente absurdo nos tempos de Cristo e hoje é banal. O fato de algo parecer incrível não o torna duvidável.

Estamos perecendo não por falta de maravilhas, mas por falta de admiração.
G. K. Chesterton


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